Autismo: entenda por que não é considerado doença, mas transtorno do neurodesenvolvimento

O autismo costuma ser confundido com doença, síndrome ou simples distúrbio psicológico, mas os manuais diagnósticos internacionais deixam claro que se trata de um transtorno do neurodesenvolvimento. A classificação explica por que não existe cura nem degeneração progressiva, e orienta toda a cadeia de diagnóstico, intervenções e apoio.
- O que diferencia autismo de doença?
- Como os manuais DSM-5 e CID-11 classificam o autismo
- Características cerebrais típicas do autismo
- Níveis de suporte no autismo segundo o DSM-5
- Etapas do diagnóstico clínico do autismo
- Possibilidades de intervenção e apoio
- Autismo em adultos: diagnóstico tardio e benefícios
O que diferencia autismo de doença?
Uma doença é definida por alteração biológica que provoca sintomas, possibilidade de cura ou remissão e, muitas vezes, algum tipo de processo inflamatório, infeccioso ou degenerativo. Já um transtorno, na acepção médica, indica uma condição que afeta o funcionamento, mas não necessariamente provoca lesão ou degradação física. Nesse ponto reside a principal diferença: autismo não implica dano que precise ser removido, e sim um padrão neurológico distinto que acompanha a pessoa por toda a vida.
Essa distinção semântica torna-se prática quando se discute políticas públicas. Se a palavra “doença” sugere eliminar ou corrigir, chamá-lo de transtorno do neurodesenvolvimento coloca o foco na inclusão, na adaptação do ambiente e no suporte individualizado, em vez de perseguir uma cura inexistente.
Como os manuais DSM-5 e CID-11 classificam o autismo
O autismo está listado como Transtorno do Espectro Autista (TEA) na quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e na décima primeira Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Essa nomenclatura reflete três pilares:
• Doença – sintomatologia com causa identificável e expectativa de recuperação total ou parcial.
• Síndrome – grupo de sinais e sintomas frequentemente associados, mas com etiologia não totalmente estabelecida.
• Transtorno – condição psicológica ou mental que interfere no cotidiano sem constituir patologia a ser extirpada.
O TEA enquadra-se no último item porque representa um espectro contínuo de necessidades e não um quadro fechado. Pesquisas publicadas por equipe da Universidade de Cambridge na revista Nature reforçam que há múltiplos perfis biológicos sob a mesma denominação clínica, o que confirma a ausência de uniformidade típica de muitas doenças.
Características cerebrais típicas do autismo
Estudos que mapearam cérebros de pessoas autistas descrevem diferenças de conectividade e microestrutura em áreas ligadas à comunicação social, ao processamento sensorial e a padrões comportamentais. Essas divergências não equivalem a dano; representam outra forma de organização neural. Entre os achados mais citados estão:
Hipersensibilidade sensorial – sons, luzes, texturas ou sabores podem gerar reações intensas.
Hiperfoco em temas específicos – concentração profunda e sustentada, frequentemente acompanhada de grande produtividade.
Dificuldades de comunicação social – interpretação literal de linguagem, menor uso de gestos e contato visual limitado.
Pensamento visual-espacial – muitas pessoas relatam raciocinar em imagens e padrões em vez de frases lineares.
Uma investigação genética com mais de 45 mil participantes mostrou que crianças diagnosticadas antes dos seis anos exibem padrões genéticos diferentes dos identificados em adultos diagnosticados após os dez. Os dados sugerem rotas biológicas distintas que, mesmo convergindo para manifestações similares, reforçam a heterogeneidade interna do espectro.
Níveis de suporte no autismo segundo o DSM-5
Para orientar intervenções, o DSM-5 propõe três níveis de necessidade de apoio:
Nível 1 – suporte mínimo. Dificuldade em iniciar interações sociais e lidar com mudanças, porém manutenção de autonomia em diversas tarefas.
Nível 2 – suporte substancial. Déficits pronunciados em comunicação verbal e não verbal, inflexibilidade perceptível mesmo com auxílio.
Nível 3 – suporte muito substancial. Prejuízos funcionais evidentes, severa limitação na comunicação e resistência extrema a transições.

Imagem: Alireza Atari
Termos antigos, como síndrome de Asperger ou autismo infantil, foram substituídos justamente para destacar a continuidade do espectro e evitar segmentações que nem sempre condiziam com a realidade clínica.
Etapas do diagnóstico clínico do autismo
Não há exame de sangue, imagem ou biomarcador específico que detecte TEA. O caminho diagnóstico é essencialmente clínico e envolve:
Observação direta – análise de comportamentos, reação a estímulos e interação social.
Entrevistas estruturadas – coleta de informações com pais, responsáveis ou, em adultos, com o próprio indivíduo.
Instrumentos padronizados – aplicação de protocolos validados para mensurar comunicação, padrões restritos e capacidades adaptativas.
Sinais podem aparecer nos primeiros meses de vida, embora a maioria dos diagnósticos ocorra entre os dois e três anos. Entre os indicadores mais relatados estão atraso na fala, pouca resposta ao nome, apego profundo a rotinas e movimentos repetitivos.
Possibilidades de intervenção e apoio
Como não há cura, o objetivo é otimizar a qualidade de vida e a participação social. As estratégias recorrentes incluem:
Terapia comportamental (ABA) – análise aplicada do comportamento para desenvolver habilidades sociais e comunicativas.
Fonoaudiologia – suporte à linguagem oral, não verbal e à pragmática da comunicação.
Terapia ocupacional – ajuste de questões sensoriais e treino de atividades de vida diária.
Adequação escolar – adaptações curriculares e apoio individualizado dentro da sala de aula.
Medicação – prescrita apenas quando há comorbidades, como ansiedade, depressão ou TDAH.
Autismo em adultos: diagnóstico tardio e benefícios
Muitos adultos recebem diagnóstico depois dos 30 anos, especialmente mulheres, cujos sinais podem ter sido mascarados socialmente. O mesmo protocolo clínico é aplicado nessa faixa etária. A identificação, mesmo tardia, costuma trazer benefícios práticos, como melhor compreensão das próprias necessidades e acesso a suportes formais.
Entre as questões que impulsionam a procura por avaliação na vida adulta estão dificuldades persistentes em ambientes de trabalho, exaustão social e histórico de saúde mental associado a padrões repetitivos de pensamento. Reconhecer o transtorno possibilita ajustes ambientais e intervenções adequadas, alinhadas ao perfil de suporte de cada pessoa.
Com base nas evidências atuais, as diretrizes internacionais mantêm a classificação do autismo como transtorno do neurodesenvolvimento, enfatizando a diversidade neurológica e a necessidade de intervenções individualizadas ao longo de toda a vida.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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