Carnaval acessível em Brasília: o bloco que elimina barreiras e inspira inclusão nacional

carnaval acessível deixou de ser apenas uma meta distante para transformar-se em prática concreta no centro de Brasília graças ao bloco “Deficiente é a mãe”, criado há 14 anos para garantir que pessoas com deficiência participem da principal festa popular do país com autonomia, segurança e respeito.
- Iniciativa pioneira transforma o carnaval acessível no coração de Brasília
- Como o bloco “Deficiente é a mãe” nasceu para garantir carnaval acessível
- Protagonistas que personificam a luta por um carnaval acessível
- Desafios estruturais ainda limitam o carnaval acessível no Distrito Federal
- Dados do IBGE reforçam a urgência de um carnaval acessível em todo o país
- Pesquisa sobre regeneração medular inspira frequentadores do carnaval acessível
O Distrito Federal recebe anualmente multidões atraídas pelos desfiles de rua, mas nem todos conseguem circular pelos trajetos ou permanecer nos eventos. Ausência de rampas, inexistência de piso tátil, poucas vagas de transporte público adaptado, palcos sem áreas elevadas para cadeirantes e intérpretes de Libras em número insuficiente ainda compõem o cenário de grande parte da folia. Frente a essas barreiras, o bloco “Deficiente é a mãe” passou a oferecer estrutura planejada para remover obstáculos e convidar pessoas com deficiência física, visual, intelectual ou auditiva a ocuparem avenidas, praças e espaços culturais durante os quatro dias de festa.
Fundado em 2012, o grupo reúne atualmente pais, profissionais da saúde, ativistas e foliões com deficiência que atuam na produção, na segurança e na animação do cortejo. Ao longo dos anos, a iniciativa se consolidou como referência de inclusão, ampliando o alcance do debate sobre acessibilidade além do carnaval e influenciando outros blocos do país.
A historiadora Lurdinha Danezy Piantino, pessoa sem deficiência e mãe do artista Lúcio Piantino, idealizou o bloco após constatar a escassez de ambientes festivos realmente preparados para receber seu filho e amigos. Em parceria com famílias e representantes de entidades de defesa de direitos, ela transformou indignação em ação. A proposta original era simples: combater o capacitismo — discriminação que subestima capacidades de indivíduos com deficiência — por meio da ocupação do espaço público em data de alto valor simbólico.
Desde a primeira edição, o desfile ocorre em área plana da Torre de TV de Brasília, ponto turístico de fácil acesso pelo transporte coletivo e que conta com calçadas largas. Ali são instaladas rampas móveis, faixa tátil, corrimãos provisórios e setor reservado com vista privilegiada para cadeirantes. A cada temporada, a organização também articula presença de monitores treinados, profissionais de apoio voluntário e intérpretes de Libras.
Entre os destaques do bloco está Lúcio Piantino, de 30 anos. Artista plástico, dançarino, palhaço e ator, Lúcio ganhou reconhecimento nacional ao incorporar a personagem Úrsula Up, considerada a primeira drag queen brasileira com síndrome de Down. Adepto confesso do carnaval desde a infância, ele utiliza o microfone do trio elétrico para convocar foliões à convivência sem rótulos e reforçar a presença da comunidade LGBTQIA+ em espaços acessíveis.
Outro fundador, Luiz Maurício Santos, 60 anos, servidor público aposentado e cadeirante após acidente de moto, atua na logística do evento. Ele relata que a maior dificuldade não está apenas na captação de recursos ou no trâmite burocrático para autorização de desfile, mas em atrair pessoas com deficiência que ainda receiam discriminação. Mesmo assim, anualmente a concentração reúne participantes fiéis, como o jovem Francisco Boing Marinucci, 22 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Francisco comparece fantasiado ao lado da mãe, a professora Raquel Boing Marinucci. Em 2026, a dupla homenageou personagens do “Sítio do Picapau Amarelo”, obra literária que marcou a infância do rapaz. Segundo Raquel, o ambiente do bloco oferece sensação de segurança rara em grandes aglomerações, sobretudo para jovens com deficiência intelectual que costumam depender de cuidadores ou familiares.
Para pessoas com deficiência visual, o desfile também representa oportunidade de participação plena. O auxiliar de biblioteca Thiago Vieira, que tem baixa visão desde o nascimento, percorre o trajeto acompanhado da cadela-guia Nina. Ele avalia o bloco como “primeiro passo” rumo a um calendário cultural mais inclusivo ao longo do ano.
Já o secretário escolar Carlos Augusto Lopes de Sousa, cadeirante há 37 anos devido a fratura na coluna provocada por desabamento, chama a atenção pela disposição de cruzar a Esplanada dos Ministérios até a Torre de TV para aproveitar a segunda-feira de carnaval. Durante os intervalos das marchinhas, ele compartilha otimismo sobre pesquisas em andamento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A professora Tatiana Coelho de Sampaio desenvolve composto chamado polilaminina, que apresentou bons resultados preliminares na regeneração de lesões medulares e aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estudos clínicos ampliados.

Imagem: Valter Campanato
Embora a experiência do bloco demonstre que inclusão é viável, o caminho para que todos os circuitos carnavalescos adotem padrões semelhantes ainda é longo. A maior parte das vias de desfile carece de calçadas regulares, iluminação adequada e sinalização tátil. A frota de ônibus adaptados não cobre todos os bairros na madrugada, dificultando deslocamento de foliões com deficiência motora ou visual. Além disso, banheiros químicos acessíveis continuam em número reduzido e estruturas provisórias de som e iluminação raramente contemplam plataformas elevadas para cadeirantes.
Os organizadores do “Deficiente é a mãe” defendem que medidas pontuais isoladas não bastam; é preciso planejamento articulado entre poder público, entidades de classe, empresas de transporte e produtores culturais. Segundo o grupo, quando a acessibilidade é pensada desde o início, os custos de adaptação caem e benefícios alcançam também idosos, gestantes e demais pessoas com mobilidade reduzida.
Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que 18,6 milhões de brasileiros com dois anos ou mais relatam algum tipo de deficiência, o equivalente a 8,9% da população nessa faixa etária. A deficiência visual é a mais frequente e atinge 3,1% dos habitantes. A magnitude desses números comprova que políticas de acessibilidade não podem ser consideradas concessões ocasionais, mas elemento central de qualquer grande evento cultural.
Para os integrantes do bloco, tornar festividades populares mais inclusivas amplia não só o público presente, mas estimula a economia criativa, gera empregos na cadeia da acessibilidade — intérpretes, técnicos de som, fabricantes de rampas e guias — e fortalece o princípio constitucional do direito ao lazer.
A esperança de tratamentos inovadores também circula entre as fantasias e os estandartes do bloco. O composto polilaminina, desenvolvido pela equipe da UFRJ, mostrou potencial para regenerar lesões medulares em experimentos iniciais. O avanço científico é acompanhado com entusiasmo por pessoas que, como Carlos Augusto, buscam não apenas diversão imediata, mas perspectivas de melhoria de qualidade de vida a longo prazo. A próxima etapa depende de autorização da Anvisa para ensaios clínicos mais amplos, informação que gera expectativa enquanto os tambores ainda ecoam.
Até lá, o compromisso coletivo é manter o bloco ativo, ampliar a divulgação e estimular outros organizadores a replicar o modelo. A meta declarada para a edição seguinte é aumentar o número de intérpretes de Libras e firmar parcerias que assegurem mais veículos adaptados na linha especial que parte do metrô até a Torre de TV.
Com bateria afinada, infraestrutura planejada e participação de foliões que se recusam a ficar à margem, o “Deficiente é a mãe” volta às ruas de Brasília no próximo carnaval, reforçando que acessibilidade não é favor: é direito de todo cidadão ocupar plenamente a maior festa popular do país.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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