Quadro 'Cavalo na Paisagem' de US$ 36 milhões: herdeiros no Brasil e Museu Folkwang travam disputa de quase 20 anos

Cavalo na Paisagem, pintura avaliada em US$ 36 milhões (aproximadamente R$ 188 milhões), tornou-se centro de uma longa disputa entre os herdeiros do banqueiro judeu Hugo Simon, hoje no Brasil, e o Museu Folkwang, na Alemanha. A obra de Franz Marc desapareceu do radar entre 1938 e 1953, período no qual a família alega ter sido vítima de perseguição nazista e saque de bens, enquanto a instituição alemã sustenta não haver provas suficientes para devolvê-la.
- Origem de ‘Cavalo na Paisagem’ e a posse de Hugo Simon
- Fuga da família Simon e o trajeto da obra ‘Cavalo na Paisagem’
- Lacuna de procedência: o que aconteceu com ‘Cavalo na Paisagem’ entre 1938 e 1953
- Disputa judicial: reivindicação dos herdeiros de Hugo Simon
- Posicionamento do Museu Folkwang e as investigações sobre ‘Cavalo na Paisagem’
- Implicações mais amplas para museus e coleções com arte do período nazista
Origem de ‘Cavalo na Paisagem’ e a posse de Hugo Simon
Os registros disponíveis indicam que, até 1933, Hugo Simon era o legítimo proprietário de Cavalo na Paisagem. Empresário do setor bancário e colecionador de arte, ele deixou Berlim poucas semanas após a ascensão do regime nazista. Naquele momento, a obra de Franz Marc já fazia parte de seu acervo particular, figurando como um dos itens mais valiosos de sua coleção particular.
Dois anos depois da fuga, em 1935, Simon encaminhou a pintura ao genro, o escultor Wolf Demeter, que vivia no sul da França, na cidade de Nice, ao lado da esposa, Ursula Simon. A transferência ocorreu após uma passagem pela Kunsthaus de Zurique, para onde Simon enviara várias peças na tentativa de vendê-las a museus suíços. A correspondência trocada naquele momento confirma que ele continuava listado como proprietário da tela.
Fuga da família Simon e o trajeto da obra ‘Cavalo na Paisagem’
Com a expansão nazista na Europa, a trajetória da família se complicou. Em 1940, a ocupação alemã de Paris forçou Hugo Simon e a esposa, Gertrud, a abandonarem a capital francesa rumo ao sul do país. Posteriormente, o casal atravessou os Pirineus a pé, utilizando passaportes tchecos falsificados, alcançando Portugal antes de embarcar para o Brasil.
No Brasil, Simon foi classificado como estrangeiro “indesejável” e, sem documentação, passou a viver de forma discreta. Estabelecido em Barbacena, cidade ao norte do Rio de Janeiro, sustentou-se como criador de bicho-da-seda até falecer em 1950. Paralelamente, Wolf Demeter e Ursula também deixaram a França ocupada, utilizando passaportes franceses falsos para chegar ao território brasileiro, onde se reuniram aos pais dela.
Até 1938, listas de organizadores de mostras de arte alemã do século 20 ainda apontavam Cavalo na Paisagem como bem de possível exibição em Londres e Paris. A obra, contudo, não foi apresentada em nenhuma das duas exposições. Após essa referência, seu caminho torna-se obscuro por 15 anos.
Lacuna de procedência: o que aconteceu com ‘Cavalo na Paisagem’ entre 1938 e 1953
A fase mais controversa da história da pintura começa justamente após 1938. Entre esse ano e 1953, não há documentação que demonstre, de maneira contínua, quem detinha a posse do quadro. Essa ausência de registros alimenta a argumentação dos sucessores de Hugo Simon de que a obra foi perdida em razão da perseguição nazista, possivelmente confiscada ou vendida sob coação.
Em 1953, o Museu Folkwang, localizado em Essen, adquiriu o quadro do marchand alemão Werner Rusche e de seu sócio Hermann Abels. Segundo declaração de Rusche entregue à instituição na época, ele teria comprado a peça de um “colecionador particular” no sul da França “com grande dificuldade e trabalho”. O vendedor original, porém, jamais foi identificado, nem foram oferecidos documentos que comprovassem uma transferência legítima.
A atividade comercial de Hermann Abels desperta atenções adicionais: pesquisas encomendadas pelo museu apontam que ele comprava obras de arte na França ocupada para o plano de museu que Adolf Hitler pretendia instalar em Linz, o chamado “Führermuseum”. Essa informação sugere, segundo os herdeiros, a possibilidade de a obra ter sido negociada sob condições coercitivas durante a guerra.
Disputa judicial: reivindicação dos herdeiros de Hugo Simon
Os representantes da família entraram pela primeira vez em contato formal com o Museu Folkwang em 2007. O pedido partiu da neta de Simon, Nadya Cardoso Denis, que buscava informações sobre a posse de Cavalo na Paisagem. Após o falecimento dela, em 2022, o processo passou para o filho, o historiador de arte e romancista Rafael Cardoso.

Imagem: Internet
A família alega que, diante da lacuna de procedência e do contexto de perseguição nazista, o museu deveria presumir que o quadro foi saqueado. Para Cardoso, cabe à instituição provar a legitimidade da posse. “Até que vejamos provas documentais de que a propriedade da pintura foi transferida de Hugo Simon, não podemos presumir que isso tenha ocorrido”, argumenta o herdeiro.
Advogados da família afirmam que, durante 18 anos de tratativas, receberam respostas consideradas lentas e fragmentadas, o que, na visão deles, posterga indefinidamente a resolução. Eles defendem uma negociação célere, sob a premissa de que as chances de localizar novos documentos diminuem com o passar do tempo.
Posicionamento do Museu Folkwang e as investigações sobre ‘Cavalo na Paisagem’
O Museu Folkwang reconhece que Cavalo na Paisagem é uma das peças com proveniência mais pesquisada de seu acervo. A instituição afirma ter encomendado três estudos externos independentes, além de análises internas, todas inconclusivas quanto ao paradeiro do quadro entre 1938 e 1953.
Segundo a porta-voz da cidade de Essen, Silke Lenz, coproprietária da coleção ao lado da Associação do Museu Folkwang, a entidade permanece aberta a “uma solução justa e imparcial” se surgirem “evidências suficientes” de que a perda se deu por perseguição nazista. Entretanto, a advogada que representa o museu, Friederike von Brühl, declarou que, mesmo considerando padrões de prova mais flexíveis para vítimas do regime, não é possível recomendar a restituição neste momento.
O diretor do museu, Peter Gorschlüter, informa que o inquérito mais recente está sob responsabilidade da pesquisadora independente Isabel von Klitzing e deve ser concluído até o fim deste ano. A instituição destaca possuir “muitas pistas promissoras” ainda em análise, mas não detalha quais seriam esses novos caminhos investigativos.
Implicações mais amplas para museus e coleções com arte do período nazista
O caso de Cavalo na Paisagem reflete uma dificuldade enfrentada por museus em todo o mundo: lidar com lacunas significativas de procedência em obras que circularam na Europa durante a perseguição nazista. Nas últimas décadas, estabeleceu-se o consenso de que instituições devem revisar seus acervos e, sempre que possível, solucionar pendências de restituição.
No entanto, a escassez de documentos formais do período de guerra, o falecimento de testemunhas diretas e a passagem do tempo tornam a tarefa complexa. Para o Museu Folkwang, a ausência de registros concretos entre 1938 e 1953 impede uma conclusão definitiva. Para os herdeiros de Hugo Simon, a mesma lacuna, aliada ao histórico de perseguição contra a família, constitui forte indício de esbulho.
Enquanto a investigação em Essen não se encerra, o quadro permanece exposto sob a guarda do museu, mas com sua titularidade contestada. A expectativa agora recai sobre o relatório final de Isabel von Klitzing, previsto para ser concluído até o término do ano corrente, documento que poderá influenciar decisivamente os próximos passos do litígio em torno de Cavalo na Paisagem.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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