‘Comida é política’: historiadora detalha a cadeia de poderes que influencia o prato do brasileiro

Comida é política” é a premissa central defendida pela historiadora Joana Monteleone em seu recém-lançado livro “Toda Comida É Política”, publicado pela Alameda Editorial. A autora reúne crônicas e ensaios produzidos ao longo de mais de uma década de pesquisa para demonstrar que cada refeição — do plantio ao serviço — resulta de uma cadeia complexa de poderes que molda hábitos, valores e desigualdades nas cozinhas privadas e nos espaços públicos.

Índice

Comida é política: a formação de uma ideia que une campo e mesa

O ponto de partida de Monteleone é simples: se toda sociedade se organiza politicamente, os alimentos que ela consome também carregam decisões políticas. A historiadora estrutura sua análise em três vértices indissociáveis — produção, circulação e acesso. Em cada etapa, atores distintos — agricultores, indústria, atacadistas, comércio, cozinheiros e consumidores — disputam espaços de decisão que terminam refletidos no prato final.

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Comida é política: produção agrícola define quem planta e o que chega ao mercado

Na etapa de produção gravitam fatores como escolha de sementes, uso de terra e prioridades de cultivo. Monteleone sugere que grandes corporações agrícolas, ao ditarem o que vale a pena plantar, acabam direcionando toda a cadeia seguinte. Ao mesmo tempo, pequenos produtores tentam preservar saberes locais e adaptados ao território, mas precisam lidar com a pressão de preços e insumos.

Esse conjunto de forças explica por que determinados ingredientes são abundantes ou escassos e como as preferências de consumo são, em parte, moldadas por quem domina o início da cadeia. Ainda que o paladar pareça pessoal, ele nasce de ofertas previamente definidas por quem tem controle econômico ou tecnológico sobre o campo.

Comida é política: circulação revela quem lucra e quem controla as rotas do alimento

Depois da colheita, o próximo elo relevante é a circulação. Redes de transporte, sistemas de armazenamento, políticas de importação e exportação e estratégias de marketing interferem diretamente nos preços e na disponibilidade dos produtos. Segundo a historiadora, é nesse momento que o alimento pode tanto ganhar valor agregado quanto perder qualidade nutricional por conta de processamentos extensivos.

Monteleone recorda que o poder de escolha das corporações alimentícias acerca de embalagem, durabilidade e apelo visual impacta a percepção de frescor e sabor. Consumidores, por sua vez, se veem orientados por campanhas publicitárias que reforçam a preferência por itens mais rentáveis para a indústria, mesmo que existam alternativas locais mais adequadas.

Comida é política: acesso expõe fronteiras de classe, gênero e território

A terceira perna da cadeia — o acesso — evidencia de forma mais explícita a desigualdade alimentar. A autora observa que diferenças de renda se traduzem em diferenças de cardápio: enquanto determinados grupos conseguem refeições variadas, outros lidam com escassez ou monotonia nutricional. Ela assinala que “a comida divide mais do que une”, pois reflete a própria estrutura social.

Questões de gênero também emergem nesse estágio. Historicamente, o trabalho do preparo doméstico recaiu sobre mulheres — de escravizadas a empregadas domésticas e donas de casa. Tal atribuição conferiu certo poder cotidiano às cozinheiras, pois “quem cozinha controla quem come”, mas, ao mesmo tempo, limitou sua mobilidade social, mantendo-as em papéis pouco reconhecidos fora do espaço doméstico.

Exemplos culturais: do filme “Estômago” ao conto da sopa de pedra

Para ilustrar como o poder de alimentar se converte em capital simbólico, Monteleone recorre ao filme “Estômago”, dirigido por Marcos Jorge. Nele, o personagem Nonato, interpretado por João Miguel, sobrevive e ascende socialmente graças à habilidade de cozinhar. A narrativa cinematográfica serve como metáfora: quem domina o fogão conquista voz e negociação, mesmo dentro de um sistema maior que o subordina.

Outro exemplo usado pela historiadora é a tradicional fábula da sopa de pedra. O viajante que anuncia preparar sopa a partir de uma pedra, mas solicita cenouras, batatas e outros ingredientes fornecidos pelos habitantes locais, demonstra o poder de quem organiza os insumos. Aos poucos, ele constrói uma refeição coletiva, partilhada por todos, reforçando a ideia de que o senso comunitário no preparo pode superar a limitação individual de recursos.

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Imagem: Internet

Comida é política: a proposta de um sistema alimentar comunitário

A autora defende que o caminho para enfrentar a fome reside justamente no modelo cooperativo presente no conto da sopa de pedra. Ao valorizar a produção local e a partilha — “respeitar as escolhas e os frutos do território”, como escreve — seria possível vislumbrar o que chama de “utopia gastronômica”: comida boa, limpa e acessível a todos. Esse horizonte, porém, exige reorganizar as forças de produção, circulação e acesso de forma menos concentrada.

O livro sugere que políticas públicas de fomento à agricultura familiar, programas de compras institucionais e incentivos a cadeias curtas de comercialização poderiam reduzir a dependência de conglomerados que hoje definem o cardápio nacional. Embora tais soluções dependam de decisões governamentais amplas, Monteleone destaca que pequenas escolhas individuais e coletivas — como priorizar produtos da vizinhança ou participar de grupos de consumo solidário — contribuem para deslocar parte do poder consolidado.

Trajetória acadêmica de Joana Monteleone fortalece a tese de que comida é política

A autora tem formação em história e iniciou o percurso acadêmico investigando a alimentação na São Paulo do século XIX, tema que resultou em sua dissertação de mestrado. Da pesquisa nasceram obras como “Sabores Urbanos” e “Toda Comida Tem uma História”, ambas também publicadas pela Alameda Editorial e pela Oficina. No novo volume, ela costura crônicas escritas ao longo de mais de dez anos, articulando erudição acadêmica e linguagem acessível para o público geral.

Com essa produção continuada, Monteleone se consolida como referência nacional em estudos de cultura alimentar, unindo rigor histórico à análise de fenômenos contemporâneos. Sua ênfase na dimensão política do ato de comer amplia o debate além da nutrição ou da gastronomia, colocando o tema na esfera dos direitos sociais.

Comida é política: preço, formato e disponibilidade da obra

“Toda Comida É Política” chega ao mercado com 316 páginas, preço de capa anunciado de R$ 94 e distribuição nacional pela Alameda Editorial. O formato em coletânea facilita a leitura fragmentada, permitindo ao leitor percorrer temas como gênero, desigualdade, indústria alimentícia e tradição culinária em textos independentes, mas interligados pela mesma tese.

Com o lançamento, leitores interessados em compreender a origem do que consomem ganham um roteiro para enxergar além do sabor e reconhecer as engrenagens de poder que definem o cotidiano alimentar. A partir da perspectiva histórica apresentada por Monteleone, as escolhas à mesa podem ser revisitadas sob um olhar crítico, atento às implicações sociais de cada garfada.

A próxima etapa relacionada ao tema será a circulação de debates e eventos de lançamento da obra, ocasião na qual a autora pretende aprofundar a discussão sobre produção, circulação e acesso de alimentos em diferentes regiões do país.

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Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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