Conceição Evaristo reúne filme na Berlinale, samba na Sapucaí e ópera em 2026: três estreias que amplificam suas escrevivências

Conceição Evaristo, referência da literatura brasileira contemporânea, atravessa 2026 com três frentes artísticas simultâneas. Aos 79 anos, a escritora mineira estreia como atriz no longa “Se Eu Fosse Vivo Vivia”, exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim, é tema do samba-enredo que a Império Serrano leva à Marquês de Sapucaí e, ainda neste ano, participa da construção de uma ópera sobre a própria trajetória, agendada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, quando completará 80 anos.
- Conceição Evaristo estreia como atriz em “Se Eu Fosse Vivo Vivia”
- Longa brasileiro marca presença na Berlinale
- Processo de filmagem valorizou a naturalidade da escritora
- Conceição Evaristo inspira samba-enredo da Império Serrano
- Ópera “Uma Ópera Escrevivência” tem estreia marcada para 20 de novembro de 2026
- Trajetória literária de Conceição Evaristo impulsiona múltiplas linguagens
Conceição Evaristo estreia como atriz em “Se Eu Fosse Vivo Vivia”
O primeiro compromisso público de 2026 para Conceição Evaristo ocorre no cinema. “Se Eu Fosse Vivo Vivia”, dirigido por André Novais Oliveira, insere a autora no elenco como Jacira, uma mulher que compartilha um cotidiano de cumplicidade com o marido Gilberto, interpretado por Norberto Novais Oliveira, pai do cineasta. A presença de Evaristo marca a primeira incursão da escritora diante das câmeras, experiência que, segundo ela, começou com insegurança, mas terminou em adaptação tranquila graças ao método de trabalho do diretor.
A produção foi iniciada dois anos antes da estreia internacional e se desenrola na cidade mineira de Contagem. No enredo, a rotina do casal idoso ganha contornos inesperados de ficção científica para abordar memória, luto e o amor em idade avançada. A personagem de Evaristo convive tanto com elementos realistas — deslocamentos pela cidade e consultas médicas — quanto com situações que levam o espectador a questionar a linearidade dos acontecimentos.
Longa brasileiro marca presença na Berlinale
A escolha de “Se Eu Fosse Vivo Vivia” para a mostra Panorama reforça a visibilidade internacional do filme e amplia a circulação do nome de Conceição Evaristo fora do circuito literário. A seção é reconhecida por abrigar narrativas que transitam entre o intimismo e a experimentação, critério que dialoga com a proposta visual de André Novais Oliveira. Ao retratar a afetuosa parceria de Jacira e Gilberto, o longa evita discursos explícitos sobre raça, oferecendo como mensagem a simples existência de um casal negro que se ama e enfrenta desafios cotidianos sem estereótipos.
O ponto de virada acontece quando Jacira adoece e o marido, abalado, começa a presenciar ocorrências perturbadoras — passagens que deixam em aberto se são alucinações, eventos sobrenaturais ou manifestações de negação diante do possível destino da companheira. Essa ambiguidade agrada à escritora, pois convida o público a formular hipóteses sobre o que de fato ocorre com o protagonista.
Processo de filmagem valorizou a naturalidade da escritora
Convidada de surpresa, Conceição Evaristo reconhece que precisou “sair” de si para encarnar Jacira, criando distância entre a intelectual pública e a dona de casa retratada na tela. A transformação ficou evidente no momento da caracterização: roupas simples, cabelo diferente e gestos contidos formaram outra identidade. Contudo, a autora encontrou afinidade na timidez da personagem, característica que também a acompanha fora do set.
O diretor, conhecido por escalar familiares e amigos sem experiência prévia, adotou um método que privilegia a espontaneidade. Essa dinâmica ajudou a escritora a converter o exercício de “escrevivência” — conceito que ela criou para tratar da literatura construída a partir de vivências pessoais e coletivas — em atuação física. Enquanto a escrita, segundo a própria Evaristo, pode provocar dor emocional, o cinema exigiu deslocamento corporal: um desafio para quem se considera de “pouco movimento”, mas que se tornou viável pelo clima de confiança instaurado na equipe.
Conceição Evaristo inspira samba-enredo da Império Serrano
Do cinema europeu para o Carnaval carioca, a segunda homenagem do ano a Conceição Evaristo acontece no desfile da Império Serrano. A escola escolheu o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu” — referência tanto à autora quanto a uma de suas personagens literárias. O tema reforça ancestralidade, resistência e protagonismo femininos, pilares reconhecíveis na obra da escritora.
A agremiação desfila pela Série Ouro, grupo que busca ascender novamente à elite do Carnaval do Rio de Janeiro. Embora não seja a primeira vez que Evaristo aparece na passarela do samba — ela integrou, em 2022, a ala de escritores homenageados pela Beija-Flor de Nilópolis — esta é a primeira ocasião em que sua vida e bibliografia sustentam, sozinhas, toda a narrativa visual e musical da apresentação.

Imagem: Internet
Para a autora, ver a literatura que brotou das ruas e das experiências negras retornar ao espaço público por meio do samba representa um percurso circular: a escrita nasceu no cotidiano e volta ao povo em formato coletivo, musical e coreografado. Ela também destaca a combinação de trabalho musical, corporal e cênico que o espetáculo envolve, reforçando a potência de suas histórias fora da página impressa.
Ópera “Uma Ópera Escrevivência” tem estreia marcada para 20 de novembro de 2026
O ciclo de estreias se completa com a elaboração da obra lírica “Conceição Evaristo – Uma Ópera Escrevivência”, produção do Theatro São Pedro, em São Paulo. A data escolhida, 20 de novembro, coincide com o Dia da Consciência Negra e com a chegada da autora aos 80 anos. Conceição colabora diretamente com duas musicistas no desenvolvimento do espetáculo, reafirmando o compromisso de que o resultado final dialogue não apenas com plateias habituadas à música clássica, mas também com comunidades periféricas.
Tal preocupação expande a noção de universalidade que norteia seus livros: partir de vivências particulares, sem negar a condição de mulher negra oriunda da periferia, e ainda assim falar sobre questões humanas reconhecíveis em diferentes contextos. Para a autora, a própria existência de uma ópera sobre uma mulher negra evidencia a diversidade de caminhos da criação artística brasileira contemporânea.
Trajetória literária de Conceição Evaristo impulsiona múltiplas linguagens
O ano de 2026 sintetiza o alcance que a literatura de Conceição Evaristo conquistou ao longo de décadas. Sua produção, descrita pela autora como universal, dialoga com sentimentos comuns à experiência humana e, ao mesmo tempo, aborda especificidades da população negra. Esse equilíbrio atraiu realizadores de cinema, carnavalescos e músicos de ópera, todos interessados em traduzir as “escrevivências” para outras plataformas.
Na prática, cada adaptação ressalta um aspecto diferente da obra da escritora. O filme enfatiza afeição e memória, lançando mão de linguagem audiovisual e de uma leve camada de ficção científica para discutir perda e resiliência. O samba-enredo projeta a potência coletiva, mobilizando centenas de intérpretes que levam ao público elementos de ancestralidade, luta e festa. Já a ópera promete articular música erudita e texto literário, expandindo a recepção da autora para palcos tradicionais e, futuramente, para espaços populares.
A articulação desses três projetos no mesmo ano também dialoga com a ideia de que a arte pode — e deve — circular em esferas diversas, evitando hierarquias entre manifestações populares e formações acadêmicas. Para Evaristo, ver sua trajetória atravessar tais circuitos evidencia que a literatura negra pode ocupar tanto salas de concerto quanto sambódromos, festivais internacionais ou bibliotecas de bairro.
O próximo passo concreto no calendário de Conceição Evaristo é a estreia de “Conceição Evaristo – Uma Ópera Escrevivência” no Theatro São Pedro, marcada para 20 de novembro de 2026, data que encerra o ciclo de homenagens iniciado pelo filme na Berlinale e pelo desfile da Império Serrano.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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