Crime da mala: documentário da RBS TV detalha investigação, perfil dos envolvidos e falhas na execução penal

O Crime da mala, ocorrido em agosto do ano passado e marcado pela descoberta de um tronco humano na rodoviária de Porto Alegre, tornou-se tema do novo episódio do RBS.DOC, produção jornalística da RBS TV que estreia neste sábado, logo após o Jornal da Globo. Além de reconstruir cada etapa da investigação, o documentário expõe o percurso de vida da vítima, o histórico violento do autor confesso e as questões jurídicas que permitiram que ele estivesse em liberdade quando voltou a matar.
- Crime da mala: como tudo começou
- Crime da mala: quem era a vítima e qual a relação com o agressor
- Crime da mala: perfil do autor confesso e reincidência chocante
- Etapas da investigação: do achado na rodoviária à confissão
- Produção do documentário: dois meses de apuração e 40 entrevistados
- Brechas na legislação penal em debate
- Situação processual, sepultamento e próximos passos
- Crime da mala: onde assistir ao episódio especial
Crime da mala: como tudo começou
Em 5 de agosto do ano anterior, funcionários do guarda-volumes da Estação Rodoviária de Porto Alegre estranharam o odor que saía de uma mala abandonada. O conteúdo macabro — o tronco de uma mulher — desencadeou uma das apurações policiais mais complexas já conduzidas no Rio Grande do Sul. A mala, deixada no local por um homem captado por câmeras de segurança, tornou-se peça central na busca por identidade da vítima e autoria do crime.
A perícia confirmou tratar-se de Brasília Costa, 65 anos, cabeleireira que vivia em uma pousada da capital gaúcha. A confirmação ocorreu por meio de exames de DNA, pois partes fundamentais do corpo, entre elas o crânio, permaneciam desaparecidas. A brutalidade somada à incerteza inicial sobre a motivação fizeram o caso ganhar repercussão estadual imediata.
Crime da mala: quem era a vítima e qual a relação com o agressor
Com origem no interior, Brasília Costa havia construído vida independente em Porto Alegre. Trabalhava por conta própria e reunia economias para manter a pequena casa que comprara com esforço. De acordo com depoimentos inéditos de familiares reunidos pelo RBS.DOC, a cabeleireira tinha personalidade reservada, mas prezava a autonomia financeira e a convivência amistosa com vizinhos de pousada.
O encontro entre Brasília e Ricardo Jardim deu-se durante a enchente que afetou o estado em 2024. Ambos buscaram abrigo na mesma hospedagem da capital e lá iniciaram convivência. O réu confesso apresentava-se como publicitário e, segundo fontes próximas ouvidas pela produção, mostrava-se prestativo em um primeiro momento. Com o tempo, relatos apontam tensão na relação, embora detalhes sobre conflitos internos permaneçam sob sigilo processual.
Crime da mala: perfil do autor confesso e reincidência chocante
Ricardo Jardim, hoje principal personagem negativo do Crime da mala, já carregava antecedente que, por si só, evidenciava alto risco de reincidência. Em 2015, ele matou a própria mãe, ocultou o corpo e foi condenado. O cumprimento de pena evoluiu para o regime semiaberto, o que lhe permitia sair do presídio durante o dia e retornar à noite.
Essa progressão penal é legalmente prevista, mas passa a ser questionada no documentário pelos especialistas entrevistados. Eles ressaltam que delitos praticados com extrema violência, como feminicídio e homicídio qualificado, exigem análise criteriosa antes de qualquer flexibilização. O fato de Ricardo ter se beneficiado desse mecanismo e, pouco tempo depois, repetir um crime de iguais características, tornou-se ponto de indignação pública e debate acadêmico.
Etapas da investigação: do achado na rodoviária à confissão
Logo após a mala ser aberta, a polícia concentrou esforços em três frentes: identificação da vítima, rastreio de câmeras e mapeamento de desaparecidos. As gravações internas da rodoviária revelaram a imagem de um homem deixando o volume no guarda-volumes. A partir dessa evidência, peritos ampliaram a nitidez do vídeo e obtiveram traços faciais suficientes para cruzar com bancos de dados.
Informações sobre hóspedes de pousadas próximas ao centro geraram lista de nomes. Entre eles, surgiu Ricardo, que já tinha passagem por homicídio e cumpria regime semiaberto. Interrogado, ele apresentou versões contraditórias e, diante do acúmulo de indícios, terminou confessando o feminicídio. A motivação exata permanece sob investigação, mas o ato consumado consolidou sua condição de réu confesso.
Enquanto a análise pericial avançava, novos fragmentos corporais foram localizados em pontos diferentes de Porto Alegre, reforçando a hipótese de que o agressor tentou dificultar a identificação completa da vítima. Mesmo assim, partes essenciais, como o crânio, seguem sem localização confirmada.

Imagem: Internet
Produção do documentário: dois meses de apuração e 40 entrevistados
Para recontar o Crime da mala de forma abrangente, a equipe do RBS.DOC investiu dois meses de trabalho contínuo. Foram produzidas mais de 20 horas de material bruto, incluindo entrevistas exclusivas com familiares, amigos da vítima, investigadores, peritos e especialistas em direito penal. Ao todo, 40 pessoas foram ouvidas; cerca de metade preferiu não aparecer diante das câmeras, mas forneceu subsídios essenciais para entender o perfil psicológico de Ricardo e a rotina de Brasília.
Além dos depoimentos, o programa realizou reconstituições nos locais onde ocorreram tanto o feminicídio de 2024 quanto o matricídio de 2015. As cenas dramatizadas, combinadas a imagens de arquivo, permitem visualizar as semelhanças entre os dois crimes: ambos envolveram ocultação de cadáver e desmembramento parcial, demonstrando padrão de comportamento.
Brechas na legislação penal em debate
Um dos focos centrais do documentário é explicar por que alguém condenado por homicídio qualificado obtém direito à progressão de regime antes de cumprir integralmente a pena. Juristas consultados destrincham artigos da Lei de Execução Penal e destacam que, embora a legislação preveja critérios objetivos — como tempo de cumprimento, bom comportamento carcerário e inexistência de falta grave —, a avaliação subjetiva do perigo de reincidência nem sempre se concretiza.
No caso de Ricardo, o histórico de violência familiar não impediu a concessão do semiaberto. A reiteração criminosa reacende o debate sobre necessidade de revisão de critérios ou ampliação de exames psicológicos periódicos, tema que os especialistas apresentados pelo RBS.DOC descrevem de forma técnica, sem propor mudanças específicas, mas expondo o quadro normativo atual.
Situação processual, sepultamento e próximos passos
Ricardo Jardim encontra-se preso preventivamente desde setembro. A Justiça agendou para 25 de fevereiro a primeira audiência de instrução e julgamento, etapa em que serão ouvidas testemunhas arroladas pelas partes e analisadas eventuais provas complementares. Até lá, o acusado permanece recolhido.
Brasília Costa foi sepultada na semana anterior ao lançamento do documentário, cinco meses depois do crime, devido à demora na liberação dos restos mortais. O enterro, acompanhado por familiares próximos, encerrou parte do luto, mas a ausência do crânio e a pendência judicial mantêm a sensação de incerteza entre parentes.
Crime da mala: onde assistir ao episódio especial
O capítulo dedicado ao Crime da mala vai ao ar neste sábado, logo após o Jornal da Globo, pela RBS TV. A exibição inaugura nova temporada do RBS.DOC, série conhecida por explorar casos de grande repercussão no Rio Grande do Sul a partir de investigação jornalística aprofundada e depoimentos de fontes primárias.
Com esse material, a emissora pretende oferecer ao público não apenas a cronologia exata dos fatos, mas também contexto sobre os mecanismos de investigação e os gargalos do sistema penal que acabaram por permitir a trágica repetição de um crime já cometido anteriormente pelo mesmo agressor.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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