Danielle Winits encara lixo, alienígenas e solidão em monólogo de Gerald Thomas no Teatro FAAP

Danielle Winits encara lixo, alienígenas e solidão em monólogo de Gerald Thomas no Teatro FAAP

Danielle Winits retorna aos palcos paulistanos como única intérprete de “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente”, produção em cartaz no Teatro FAAP que a coloca numa paisagem de restos domésticos, dialogando com a ideia de vida extraterrestre para examinar a obsessão contemporânea por aparência e consumo.

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Danielle Winits desafia expectativas em personagem que vive entre restos de consumo

A atriz, lembrada por papéis televisivos em que a beleza funcionava como ferramenta de persuasão — casos das tramas “Sex Appeal” e “Corpo Dourado” —, assume agora a identidade de Trudy, uma catadora que abandona a antiga rotina de consultora criativa em marketing para vagar por um imenso lixão. Com cabelo desalinhado e sem maquiagem, a protagonista se distancia completamente das modelos que consagraram a intérprete na televisão, deslocamento que a própria artista considera necessário para “furar bolhas” que limitam o feminino.

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Ao optar por um monólogo em cenário inóspito, Winits busca romper a expectativa de glamour associada ao seu histórico. Esse esforço, segundo ela, também responde à fiscalização permanente das redes sociais, espaço onde declara existir margem para preconceito em relação a escolhas artísticas que escapam do padrão.

Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente recria lixão pós-capitalista

A montagem bebe no texto escrito em 1985 pela norte-americana Jane Wagner, condensado agora em uma só figura dramática. No palco, latas amassadas, sacolas volumosas e restos de comida compõem o panorama que remete a um mundo pós-produção em massa. Entre esses resíduos, Trudy divaga sobre indícios de inteligência fora da Terra, enquanto questiona o modo de vida que deixou para trás.

Elementos visuais reforçam o desconforto. Roupas gigantes pendem do teto para sugerir a presença de ETs, jogos de luz e canções criam estímulos que satirizam a hiperconexão digital, e quadros evocam Andy Warhol para tensionar fronteiras entre arte e mercadoria. Ao ridicularizar influenciadores e plataformas como o Instagram, a encenação coloca o lixo como metáfora do acúmulo de informações e postagens que definem a relevância de celebridades.

Danielle Winits e Gerald Thomas: encontro de trajetórias marcadas por risco

Dirigido por Gerald Thomas, o projeto materializa o encontro de duas carreiras conhecidas por escolhas audaciosas. O encenador, cuja assinatura teatral radical o levou tanto ao prestígio quanto a polêmicas, ficou famoso, por exemplo, pelo episódio de 2003 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quando exibiu as nádegas e simulou masturbação diante de espectadores que vaiavam sua leitura da ópera “Tristão e Isolda”. À época, foi acusado de ato obsceno e posteriormente absolvido pelo Supremo Tribunal Federal.

Mais recentemente, Thomas veio a público rever posição sobre a condenação do humorista Leo Lins, após inicialmente encarar as críticas ao comediante como ameaça à liberdade de expressão. O diretor afirmou ter repensado o caso e se desculpou.

Na atual produção, Thomas conduz os ensaios com olhar de quem vê paralelos entre a arena digital e o tradicional Speaker’s Corner, espaço londrino onde cidadãos discursam simultaneamente. Para ele, a internet replica o cenário de “pessoas vomitando verdades diferentes”, sem que o excesso perca força de choque. Essa perspectiva dialoga com o texto da peça, que ironiza a avalanche de discursos em plataformas online.

Da TV à produção teatral: como Danielle Winits construiu autonomia artística

Danielle Winits não se limita à atuação em “Choque!”. Coprodutora do espetáculo, ela administra a Winits Produções Artísticas, criada em 2006, ano em que estreou nos palcos com “Amo-Te”, de Marcelo Rubens Paiva. Naquele projeto, viveu vítima de relacionamento abusivo, estreia que marcou o início de sua atuação nos bastidores como empresária teatral.

Danielle Winits encara lixo, alienígenas e solidão em monólogo de Gerald Thomas no Teatro FAAP - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

O currículo da companhia inclui títulos musicais populares, como “O Mágico de Oz”, onde a atriz encarnou a Bruxa Má do Oeste, e “Meninas Malvadas”. Segundo a própria intérprete, produzir as próprias obras é forma de garantir que temas de interesse pessoal ganhem a cena, assumindo o caráter de ato político e de conquista individual.

Ao aceitar trabalhar com Gerald Thomas, Winits realizou desejo antigo, mesmo que o diretor não a conhecesse previamente. Ele recorreu à internet, onde três cenas curtas — descritas por ele como eróticas e intensas — bastaram para convencê-lo do talento da atriz. Depois, via chamadas de vídeo, encontrou uma profissional que definiu como sábia e engajada politicamente, bem distante da imagem exclusivamente sensual associada a seu nome.

Satira ao mundo conectado e referências pop ampliam a experiência cênica

“Choque!” recorre a múltiplas camadas para discutir contemporaneidade. O material de Wagner, atualizado, mantém alusões a Warhol, artista que elevou produtos industrializados à condição de arte, deslocamento que ecoa na trama ao exibir obras plásticas no meio do lixão. Ao mesmo tempo, a encenação ridiculariza influenciadores digitais, expondo como a busca por curtidas se assemelha à crença de Trudy em alienígenas: ambos os fenômenos dependem de traços, vestígios e narrativas criados pela imaginação coletiva.

Na avaliação do diretor, a necessidade atual de emitir opiniões contrasta com a ausência de ações práticas. Tal crítica é compartilhada por Winits, que rejeita zonas de conforto e afirma desejar servir de exemplo a outras mulheres quanto à persistência, ainda que o avanço muitas vezes se limite ao discurso.

Gerald Thomas também lembra que, em 2023, trouxe ao Brasil “Sabius, Os Moleques”, obra apocalíptica sobre a Terra sucumbindo à humanidade. Depois de alguns meses no país, retornou aos Estados Unidos, onde vem sendo filmado para um documentário biográfico. Durante a temporada paulista de “Choque!”, ele acompanha o processo à distância, deixando a execução in loco sob responsabilidade do assistente Osni Silva.

Serviço: temporada paulistana de Choque! no Teatro FAAP

A temporada em São Paulo segue até 29 de março. As sessões ocorrem às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 17h, no Teatro FAAP, localizado na Rua Alagoas, 903. Os ingressos estão disponíveis por R$ 160 na plataforma oficial da casa de espetáculos, e a classificação etária é de 12 anos.

Com esse calendário, Danielle Winits prossegue o trabalho iniciado na temporada carioca, elogiada pelo público local. A atriz destaca que, embora a recepção no Rio tenha sido positiva, permanece vigilante contra possíveis preconceitos e continua a investir na produção de projetos que escapem de rótulos previamente atribuídos à sua trajetória.

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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