Estudo questiona vida na lua Europa ao indicar falta de energia geológica

Um novo trabalho científico reacende o debate sobre a vida na lua Europa, após indicar que o corpo celeste pode não dispor da energia necessária para manter a atividade geológica que muitos pesquisadores consideram indispensável a ambientes habitáveis.
- Por que a possibilidade de vida na lua Europa sempre atraiu atenção
- Novo estudo detalha limites de energia para vida na lua Europa
- Camadas de gelo, oceano e manto: estrutura revela desafios à vida na lua Europa
- Aquecimento de maré e sua influência atual na vida na lua Europa
- Missões Europa Clipper e Juice devem refinar cenário sobre vida na lua Europa
- O que os pesquisadores pretendem investigar nos próximos anos
Por que a possibilidade de vida na lua Europa sempre atraiu atenção
Europa, uma das quatro grandes luas de Júpiter, tem sido apontada há décadas como um dos alvos mais promissores na busca por organismos extraterrestres. A razão principal é a combinação singular de características físicas: uma superfície recoberta por gelo, sob a qual se estende um oceano subterrâneo que, de acordo com estimativas, reúne de três a quatro vezes mais água do que existe nos oceanos da Terra. Para diversos projetos de exploração planetária, essa imensa reserva hídrica, isolada da radiação espacial e potencialmente aquecida internamente, fornece condições que, até agora, alimentavam expectativas de encontrar processos biológicos ativos.
Até antes das conclusões divulgadas recentemente, a comunidade científica considerava plausível que, na interface entre o oceano e o manto rochoso de Europa — o equivalente a um leito marinho — pudessem ocorrer fontes hidrotermais ou mesmo vulcanismo de pequena escala. Esses ambientes, na própria Terra, são famosos por abrigar ecossistemas complexos, independentes da luz solar e alimentados pela química derivada do interior do planeta. A analogia servia de base teórica para imaginar que fenômenos semelhantes pudessem sustentar vida microscópica no satélite joviano.
Novo estudo detalha limites de energia para vida na lua Europa
Divulgado na revista Nature Communications, o estudo foi conduzido por uma equipe que examinou em detalhes a estrutura interna de Europa e os mecanismos capazes de gerar calor no interior da lua. A investigação articulou modelos geofísicos e dados previamente colhidos por missões anteriores para estimar quanta energia é, de fato, produzida e transferida do núcleo até o fundo do oceano. A conclusão central aponta que o montante energético disponível atualmente é baixo, possivelmente insuficiente para desencadear fraturas constantes, atividade vulcânica ou fontes hidrotermais. Sem esse dinamismo, processos químicos associados à síntese de nutrientes — que seriam equivalentes aos observados em ecossistemas abissais terrestres — tenderiam a não ocorrer.
A análise também comparou o passado e o presente da lua. Segundo os autores, é provável que o aquecimento interno fosse mais intenso em eras anteriores, mas perdeu força à medida que a lua evoluiu. Num cenário atual, o nível térmico estimado não sustentaria mecanismos geológicos vigorosos. Tal restrição energética pode frustrar a hipótese de que o fundo do oceano de Europa ofereça nichos sustentáveis para formas de vida semelhantes às conhecidas na Terra.
Camadas de gelo, oceano e manto: estrutura revela desafios à vida na lua Europa
Para compreender o impacto das conclusões, é preciso detalhar a configuração interna de Europa. A crosta gelada tem espessura calculada entre 15 e 25 quilômetros. Logo abaixo, estende-se um oceano com profundidade estimada de 60 a 150 quilômetros. Esse volume líquido é contido por um manto rochoso que, por sua vez, envolve um núcleo metálico. A transição entre água e rocha — a interface oceano-manto — é justamente o local onde se esperava encontrar fontes de energia química capazes de criar e sustentar vida.
No entanto, se a quantidade de calor ascendente for incapaz de provocar convulsões geológicas, o ambiente marinho permanece relativamente estático. Sem fraturas recentes ou plumas quentes, a circulação de elementos químicos fica limitada. Em consequência, compostos essenciais à nutrição microbiana deixariam de ser renovados com frequência. Esse panorama de “tranquilidade” geológica, descrito nos resultados, reduz drasticamente as chances de uma biosfera ativa em escala mensurável.
Aquecimento de maré e sua influência atual na vida na lua Europa
O aquecimento de maré, gerado pela intensa interação gravitacional entre Júpiter e suas quatro grandes luas — Io, Europa, Ganimedes e Calisto — é o fenômeno responsável por evitar que o oceano subterrâneo congele por inteiro. O estudo revisitou esse mecanismo para verificar se a deformação periódica do satélite produziria calor suficiente a ponto de compensar outras perdas térmicas. Os cálculos indicam que, no estágio atual, a deformação de maré em Europa não se compara ao que se observa em Io, local famoso por sua extrema atividade vulcânica.

Imagem: Artsiom P Shutterstock
A diferença decorre de fatores como distância ao planeta, composição interna e distribuição de massa. Em Europa, a energia de maré ainda existe, mas em intensidade menor. Esse nível moderado sustenta o estado líquido do oceano, porém, não gera as reações geológicas vigorosas antes postuladas. Assim, o próprio agente que preserva a camada de água também pode impor um limite: a energia é bastante para manter o mar, mas curta para acionar fontes termais.
Missões Europa Clipper e Juice devem refinar cenário sobre vida na lua Europa
Mesmo com conclusões menos otimistas, a exploração científica de Europa está longe de ser encerrada. Duas missões espaciais em fase de desenvolvimento prometem coletar dados capazes de validar ou questionar o novo modelo energético. A principal iniciativa dos Estados Unidos, denominada Europa Clipper, é coordenada pela NASA e tem lançamento previsto para a próxima década. Os instrumentos a bordo examinarão composição química, espessura da crosta, profundidade do oceano e distribuição de calor na lua.
Em paralelo, a Agência Espacial Europeia conduz a missão Juice, cujo foco primário é Ganímedes, mas que também passará por Europa e Calisto. Essa trajetória proporcionará medições gravitacionais e magnéticas adicionais. Ao comparar as observações diretas com as projeções do estudo, os cientistas poderão aferir se a energia interna é realmente tão limitada quanto indica o novo modelo. Caso divergências apareçam, será possível ajustar hipóteses sobre a dinâmica interna e, por consequência, sobre a viabilidade de nichos habitáveis.
O que os pesquisadores pretendem investigar nos próximos anos
A perspectiva imediata é acompanhar os dados que as missões entregarão, sobretudo aqueles relacionados à temperatura da subsuperfície e à composição de plumas de vapor, caso sejam detectadas. Se eventuais jatos de água forem identificados, análises espectrais poderão revelar a presença de compostos orgânicos ou de produtos químicos que indiquem reações internas ainda ativas. Em contrapartida, a detecção de uma crosta totalmente estável reforçaria a avaliação recente de que a energia geológica está em níveis mínimos.
Enquanto a instrumentação avança, a comunidade científica ajusta modelos de formação térmica, simula a circulação do oceano subterrâneo e refina algoritmos que traduzem medições de campo magnético em parâmetros de salinidade. Essas iniciativas auxiliam a interpretar dados futuros e a estabelecer limites realistas para o potencial biológico de Europa. Em última instância, entender se há ou não condições para a vida na lua Europa também ajuda a definir estratégias de pesquisa para outros corpos gelados, como Encélado e Titã, que compartilham características superficiais semelhantes.
Com o lançamento da missão Europa Clipper em preparação e o cronograma da missão Juice em andamento, o tema ganha novos marcos de verificação. Os resultados dessas expedições fornecerão evidências decisivas sobre o grau de atividade geológica e a possível habitabilidade da lua nos próximos anos.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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