Flip 2024 destaca Orides Fontela: por que a poeta proletária ganha homenagem central na feira literária de Paraty

Orides Fontela, nome que se tornou sinônimo de rigor poético e identidade proletária, foi escolhida como autora homenageada da 24ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), programada para ocorrer entre 22 e 26 de julho. A decisão recoloca a poeta no centro do debate literário brasileiro ao mesmo tempo em que a feira retoma o calendário pré-pandemia, reforçando a relevância da poesia na cena cultural contemporânea.
Orides Fontela e a escolha da Flip
A curadora da Flip, Rita Palmeira, explicou que a seleção de Orides Fontela atende ao propósito de enfatizar a potência literária da autora e, simultaneamente, aproximar seu legado de leitores que muitas vezes ouviram falar mais sobre aspectos biográficos turbulentos do que sobre a própria poesia. Ao optar pela poeta paulista, a feira dá continuidade a uma linha de homenagens que, recentemente, trouxe à tona nomes como Maria Firmina dos Reis, Pagu e João do Rio. Nesse novo contexto, a intenção não é apenas apresentar escritores brasileiros ao público internacional, mas evidenciar para o público doméstico vozes que por diferentes razões permanecem à margem do circuito comercial.
A edição de 2024 reforça, portanto, a missão da Flip de funcionar como espaço de resgate e divulgação de autores cujas obras influenciaram gerações, mas que não necessariamente alcançaram circulação massiva. No entendimento da curadoria, Orides Fontela cumpre todos os critérios: consistência estética, relevância histórica e uma produção que continua alimentando pesquisas acadêmicas.
A trajetória literária de Orides Fontela
Nascida em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, Orides Fontela teve a primeira projeção pública em 1965, quando o professor da Universidade de São Paulo (USP) Davi Arrigucci Jr. leu o poema “Elegia” no jornal de sua cidade natal. Impressionado, Arrigucci apresentou a produção da jovem escritora a intelectuais como Antonio Candido. O entusiasmo desse círculo acadêmico rendeu a Orides o apelido de “nosso Rimbaud” e impulsionou a publicação do livro de estreia, “Transposição”, em 1969.
Durante a graduação em Filosofia na USP, a poeta manteve proximidade com nomes de destaque do pensamento brasileiro, como Marilena Chauí. O curso exerceu influência direta em composições posteriores, entre elas “Mito”, “Centauros”, “Eros”, “Penélope”, “Kairós”, “Ananke”, “As deusas” e “As sereias”. Mesmo com reconhecimento crítico consistente, Orides manteve uma vida marcada por dificuldades financeiras, motivo pelo qual se definia como “proleta” — junção das palavras proletária e poeta — expressão que enfatiza sua recusa em dissociar origem social de prática literária.
A fidelidade radical à poesia como modo de existir culminou em um cotidiano que priorizava a escrita, mesmo à custa de conforto material. Essa combinação de rigor estético e escassez econômica tornou-se parte do mito que a acompanha, mas, nas palavras da curadoria da Flip, o foco agora recai sobre o texto, não sobre o anedotário.
Principais obras e prêmios de Orides Fontela
Entre 1969 e 1996, Orides Fontela publicou livros que se tornaram referência para estudiosos do Modernismo tardio e da poesia brasileira contemporânea. Após “Transposição”, vieram “Helianto” (1973) e “Rosácea” (1986). O volume “Alba”, lançado em 1983, recebeu o Prêmio Jabuti, reconhecimento máximo do mercado editorial nacional. Já “Teia”, de 1996, foi agraciado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), consolidando o prestígio crítico da autora.
Esses títulos compartilham características formais marcantes: poemas curtos, precisão vocabular, imagens ligadas à natureza — como luz, pássaros, águas e flores — e um silêncio estrutural que obriga o leitor a preencher lacunas reflexivas. A confluência de referências filosóficas, especialmente as de matriz oriental, como o zen-budismo, reforça o aspecto contemplativo da escritura. Para estudiosos, a poeta renovou o Modernismo ao depurar o discurso até o limite do essencial, o que explica sua condição de referência incontornável no repertório literário nacional.
Relançamentos previstos durante a Flip
A escolha da poeta coincide com a decisão da editora Hedra de reeditar a obra completa de Orides Fontela. Os novos volumes chegarão ao mercado acompanhados por ensaios críticos de especialistas como Antonio Candido, além de leituras contemporâneas que dialogam com o cânone. O projeto editorial contempla também o relançamento da biografia “O Enigma Orides”, escrita por Gustavo de Castro, e uma coletânea de entrevistas concedidas pela autora ao longo de três décadas.

Imagem: Internet
Segundo o editor Jorge Sallum, a compreensão plena da poesia de Orides passa pelo contato com a fortuna crítica. Essa abordagem procura equilibrar texto e comentário, permitindo que leitores não familiarizados com terminologia filosófica ou referências simbólicas encontrem caminhos de interpretação. A presença de ensaios acadêmicos, ao mesmo tempo, reforça a relevância da poeta nos departamentos de Letras de diversas universidades brasileiras.
A curadoria e o enfoque na dimensão estética
Ao delinear a programação de mesas e debates, a Flip pretende privilegiar a discussão literária sobre a obra de Orides Fontela, evitando a centralidade de episódios pessoais como conflitos familiares, problemas financeiros ou o falecimento em um sanatório de Campos do Jordão, dois anos após a entrevista em que a autora reiterou a auto-classificação de “poeta mais pobre do Brasil”. A curadoria entende que esses temas emergirão naturalmente, mas não devem eclipsar a contribuição artística.
A estratégia de deslocar o interesse para a textualidade pode ampliar o alcance de uma poesia frequentemente considerada hermética. Embora as composições de Orides demandem leitura atenta, elas se organizam em versos enxutos que oferecem ao público pontos de entrada claros: os campos semânticos da natureza, a tensão entre palavra e silêncio e a investigação de conceitos como tempo e destino. Ao iluminar esses elementos, os curadores esperam atrair tanto leitores iniciantes quanto estudiosos.
Poesia em alta e protagonismo feminino
A homenagem a Orides Fontela ocorre em um momento descrito pelos organizadores como de efervescência para a poesia no Brasil. O mercado registra crescimento no número de editoras especializadas, revistas literárias e clubes de leitura dedicados ao gênero. Dentro desse cenário, a visibilidade de autoras mulheres tem sido um dos motores de renovação, reforçando debates sobre representatividade e igualdade no espaço cultural.
A escolha de Orides, portanto, ecoa pautas sociais mais amplas, como a discussão acerca das desigualdades de classe e gênero. Para o editor e amigo Augusto Massi, a decisão é acertada sob os pontos de vista literário e sociopolítico: ela reconhece a qualidade estética de uma poeta que alcançou prêmios consagrados, ao mesmo tempo em que revisita questões sobre acesso, reconhecimento e permanência no campo cultural. Essa combinação dialoga com o espírito da Flip de integrar literatura e discussões contemporâneas.
O que esperar da Flip 2024
Entre 22 e 26 de julho, Paraty sediará mesas de debate, leituras públicas e lançamentos que terão a obra de Orides Fontela como eixo articulador. Intelectuais, críticos e poetas de diferentes gerações devem se reunir para analisar a contribuição da autora paulista ao Modernismo tardio, discutir a singularidade de seu minimalismo formal e apresentar as novas edições que chegarão às livrarias pela Hedra. O cronograma completo de atividades será divulgado próximo ao evento, mas a organização já confirmou que a programação principal dará atenção especial a leituras comentadas dos poemas.
Com a retomada do calendário original, a feira literária espera receber público semelhante ao de edições prévias à pandemia, reunindo leitores em busca de lançamentos, reencontro com autores favoritos e, neste ano, uma oportunidade ímpar de experimentar a poesia precisa e silenciosa de Orides Fontela.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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