Aos 90 anos, Heraldo do Monte revive era dourada das jam sessions em São Paulo

O guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, hoje com 90 anos, revisita a fase de maior efervescência musical de São Paulo – período em que as lendárias jam sessions promovidas pelas Folhas, no início da década de 1960, reuniam nomes consagrados e talentos emergentes no auditório do jornal.

Índice

Heraldo do Monte e a primeira Jam Session das Folhas

A trajetória que conecta Heraldo do Monte ao projeto Jam Session das Folhas começa no dia 5 de dezembro de 1960, data do concerto inaugural que lotou o auditório do jornal. A apresentação foi tão representativa que originou o LP “Jam-Session das Folhas”, lançado em 1961 e hoje considerado registro histórico da cena paulistana. Nessa gravação, o público ouviu o Dick Farney Trio — Dick Farney no piano e na voz, Luiz Chaves no contrabaixo e Heraldo do Monte na guitarra — interpretando temas como “The Man I Love”, de George e Ira Gershwin, e “Velhos Tempos”, de Luiz Bonfá. O sucesso imediato impulsionou a realização das audições subsequentes, sempre na primeira segunda-feira de cada mês, criando um ponto de encontro fixo para artistas e ouvintes de jazz, bossa nova, samba e música instrumental brasileira.

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Rotina intensa de Heraldo do Monte nos estúdios paulistanos

Chegado a São Paulo em 1956, proveniente de Recife, Heraldo do Monte mergulhou numa rotina de gravações diurnas que incluía álbuns de múltiplos gêneros, trilhas para rádio, televisão e cinema, além de comerciais de rádio conhecidos como jingles. A versatilidade do guitarrista tornava possível, em um mesmo dia, gravar com o cantor baiano Waldick Soriano e, logo em seguida, participar de sessões com o compositor francês Michel Legrand. Conhecedor minucioso de teoria e leitura musical, ele ocupava rapidamente lugares cobiçados em orquestras de estúdios, como as conduzidas por Carlos Piper e Walter Wanderley, reforçando a reputação de músico capaz de transitar por repertórios amplos sem perda de qualidade.

Heraldo do Monte nas noites da praça Roosevelt

Quando o sol se punha, a jornada de trabalho continuava nas boates localizadas na então pulsante praça Roosevelt. A casa Farneys, aberta em 1959 pelo próprio Dick Farney, foi um dos palcos fixos do guitarrista. Ali, ele dividiu madrugadas com artistas que, à época, fortaleciam a Música Popular Brasileira, o jazz e a bossa nova. O circuito noturno incluía ainda A Baiúca e a Cave, todas vizinhas na mesma região central da capital paulista. Em seguida, Heraldo se juntou à equipe musical da Djalmas, boate comandada pelo organista Djalma Neves Ferreira. Nesse ambiente, trabalhou ao lado do baterista Rubinho Barsotti e do contrabaixista Luís Chaves, que mais tarde formariam o Zimbo Trio com o pianista Amilton Godoy. O palco também recebeu vozes como as de Jair Rodrigues e Elis Regina, evidenciando a pluralidade de gêneros que passavam por aquelas madrugadas.

Encontros marcantes: de Les Brown a Les Paul

O fluxo de capital e a demanda por música ao vivo nos anos 1960 chegaram a tal ponto que uma emissora de televisão paulista buscou nos Estados Unidos a orquestra completa do bandleader de jazz Les Brown para apresentações na cidade. Nesse mesmo período, Heraldo do Monte recebeu elogios diretamente de Les Paul, lenda da guitarra mundial. Segundo o relato do pernambucano, o encontro ocorreu na Farneys: um garçom avisou que um senhor havia pedido para falar com ele; o visitante se identificou como Les Paul e elogiou a performance do brasileiro, registrando um momento raro de reconhecimento internacional em pleno centro paulistano.

Improvisação e liberdade criativa nas jam sessions

Nos palcos das jam sessions das Folhas, a regra era não ter regra. Heraldo do Monte lembra que os temas eram escolhidos na hora e podiam se estender indefinidamente, permitindo que cada instrumentista improvisasse até onde desejasse. Foi nesse ambiente livre que o guitarrista se consolidou como referência em jazz e música instrumental. A espontaneidade era tamanha que, quando o público solicitava a canção “Marina”, de Dorival Caymmi, Dick Farney reagia com irreverência: em vez de atender ao pedido, emitia um ruído cômico ao microfone, arrancando risos e encerrando a solicitação. O episódio ilustra a informalidade que permeava as apresentações e a proximidade entre músicos e plateia.

Da memória seletiva ao legado fonográfico

Apesar de o LP “Jam-Session das Folhas” registrar faixas específicas — entre elas “I Want to Be Happy”, de Y. Youmans e I. Caesar, e “Gone With the Wind”, de A. Wrubel e Here Magidson, gravadas com o reforço do baterista argentino Claudio Slon —, o próprio Heraldo do Monte admite não se recordar dos detalhes de cada solo ou da ordem exata do repertório. Para ele, aquelas jam sessions se integravam a uma sucessão de compromissos que envolviam gravações em estúdio durante o dia e trabalho em boates à noite. A quantidade de trabalho era tão grande que o músico afirma ter sido remunerado de forma significativa, a ponto de duvidar do próprio contracheque em alguns momentos, embora os pagamentos nem sempre chegassem conforme o combinado.

Aos 90 anos, Heraldo do Monte revive era dourada das jam sessions em São Paulo - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Outros protagonistas das jam sessions das Folhas

O palco do auditório do jornal recebeu nomes como o saxofonista norte-americano Booker Pittman, sua filha Eliana Pittman, a cantora e compositora Rita Lee e o pianista Johnny Alf. Entre os instrumentistas que ainda permanecem em atividade estão o trompetista Magno D’Alcântara, o saxofonista Roberto Sion, o pianista Edmundo Villani-Côrtes e o pianista Luiz Mello. A coexistência de artistas nacionais e estrangeiros transformou as jam sessions em espaço privilegiado para a troca cultural, reforçando a condição de São Paulo como polo musical naquele período.

Heraldo do Monte, do Quarteto Novo às sessões de estúdio

Para além das jams, Heraldo do Monte integrou grupos importantes, entre eles o Quarteto Novo, reconhecido na música instrumental brasileira. Ainda que a notícia em foco não detalhe a discografia do conjunto, o simples fato de o guitarrista ter conciliado trabalhos solo, participações em trios e formações maiores demonstra sua adaptabilidade artística. A vida profissional, marcada pela improvisação, rendeu um histórico fonográfico vasto, onde cada faixa registra apenas uma fração da experiência acumulada ao longo de décadas.

Um trabalhador incansável na música

Nascido dez anos após o decreto presidencial que instituiu o 1º de maio como data de celebração do trabalho, Heraldo do Monte personifica a ideia de dedicação total ao ofício. Seu relato confirma que São Paulo oferecia abundância de oportunidades remuneradas para músicos capazes de atender às exigências dos estúdios e das casas noturnas. A combinação de domínio técnico, leitura fluente de partituras e disposição para jornadas extensas sedimentou sua reputação. Ao completar nove décadas de vida, ele mantém viva, através da memória e dos registros sonoros, a era em que a capital paulista era palco diário de encontros musicais antológicos.

O aniversário de 65 anos da primeira Jam Session das Folhas, celebrado em 5 de dezembro de 2025, serve como marco para revisitar essas histórias. Enquanto o jornal alcança 105 anos de existência, as entrevistas com participantes originais — como a de Heraldo do Monte — garantem que as narrativas sobre aquela época continuem disponíveis às novas gerações de leitores e ouvintes interessados em compreender como se formou a sólida tradição musical paulistana.

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OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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