Lasar Segall e a condição humana: restauração de obra seminal impulsiona mostra no Museu Judaico

Lasar Segall volta a ocupar lugar de destaque no circuito cultural de São Paulo com a exibição “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”, organizada pelo Museu Judaico em parceria com o Museu Lasar Segall. O ponto de partida da mostra é a recuperação de “Interior de Pobres II”, tela de 1921 que, após restauração, ajuda a recontar a trajetória do pintor lituano radicado no Brasil desde 1923 e reconhecido como expoente do modernismo.

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Lasar Segall: trajetória do pintor lituano no Brasil

Radicado em território brasileiro dois anos após pintar “Interior de Pobres II”, Lasar Segall encontrou no país uma cena artística aberta a experimentações modernistas, embora parte da crítica conservadora o rejeitasse por considerá-lo estrangeiro e “degenerado”. Em 1943, quando exibiu seus quadros no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, ele foi alvo de ataques verbais que realçavam o estranhamento a sua estética inovadora. A reação negativa, entretanto, não impediu que Segall prosseguisse explorando temas ligados a conflitos, migrações e desigualdades sociais, experiências atravessadas pela condição de judeu em uma Europa marcada pelo antissemitismo e, depois, pelo status de imigrante em solo brasileiro.

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A carreira de Segall se estendeu até 1954, ano de sua morte, período em que desenvolveu uma produção variada que transitou entre retratos intimistas, cenas urbanas, paisagens tropicais e representações contundentes da violência de guerra. A atual exposição pretende apresentar esse conjunto de fases ao público, reforçando o compromisso do artista com a dignidade de grupos marginalizados.

Lasar Segall e o retrato da pobreza pós-Primeira Guerra em “Interior de Pobres II”

O visitante é recebido por “Interior de Pobres II”, obra que sintetiza a visão do pintor sobre a Alemanha empobrecida após a Primeira Guerra Mundial. A pintura reúne quatro figuras em uma sala exígua, cada qual isolada em seus pensamentos. Dois homens e uma mulher permanecem sentados nos cantos; o quarto personagem, de gênero indefinido, dorme exausto num sofá, ostentando pálpebras arroxeadas que sugerem adoecimento.

A cena, dominada por tons terrosos e cinzentos, reflete o desalento de uma sociedade recém-abatida por conflito bélico e crise econômica. A forma alongada dos rostos, traço marcante de Segall, compartilha espaço com pinceladas austeras, enfatizando o estado de introspecção dos presentes. O quadro, que esteve rasgado e guardado em reserva técnica, foi restaurado graças a um programa conjunto dos dois museus envolvidos na mostra. De volta ao público, ele marca não só um feito de conservação, mas também um resgate de memória sobre o impacto da guerra nas classes mais pobres.

Perseguição nazista e a classificação de “arte degenerada” — impacto em Lasar Segall

Próxima à tela inaugural encontra-se “Eternos Caminhantes”. A composição, confiscada em 1933 do Museu da Cidade de Dresden pela ditadura nazista, foi tachada como exemplo de “arte degenerada”. Nela, cinco figuras angulosas avançam em ambiente sombrio, representando pessoas forçadas a abandonar suas casas para escapar de perseguições. O quadro desapareceu por décadas até ser descoberto em 1954, no sótão de um antigo oficial alemão, por um marchand francês.

O episódio ilustra um capítulo de censura que atingiu diversos artistas, entre eles Segall, cujo trabalho era associado a visões contrárias ao regime totalitário. A apreensão da obra reforça o contexto de intolerância que o pintor vivenciou na Europa e explica sua atenção dirigida a migrantes, refugiados e vítimas de discriminação. Esse interesse está presente em séries de desenhos produzidos durante a Segunda Guerra Mundial, em que registrou cenas de violência, como no estudo intitulado “Pogrom”, de 1937, que mostra corpos amontoados sobre escombros.

Lasar Segall na cena carioca: o Mangue e a dignidade das trabalhadoras

Depois de se fixar no Brasil, Lasar Segall dirigiu o olhar para realidades brasileiras urbanas. No Mangue do Rio de Janeiro — área marginalizada conhecida pela presença de prostituição — ele buscou retratar o cotidiano das mulheres que habitavam ou circulavam pelas ruas estreitas. Quadros como “Rua de Erradias” e “Figura com Reposteiro”, ambos presentes na mostra, exibem mulheres de torso descoberto caminhando ou espreitando pelas janelas de casebres.

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Imagem: Internet

Por meio dessas cenas, o artista procurou registrar, sem julgamento moral, a condição social que empurrava aquelas personagens para atividades estigmatizadas. A curadora Patrícia Wagner observa que a empatia de Segall tem raízes na própria experiência de exclusão vivida por ele, primeiro como judeu em solo europeu e, depois, como imigrante em território brasileiro. Ao retratar essas figuras femininas, ele procurou conceder visibilidade e humanidade a sujeitos à margem da sociedade.

Evolução cromática: como a luz tropical redefiniu Lasar Segall

O convívio com a luminosidade intensa do Brasil modificou a paleta de Lasar Segall. Se obras europeias como “Interior de Pobres II” privilegiam ocres e cinzas, em pinturas realizadas já no país aparecem cores mais vivas. “Morro Vermelho”, pertencente a coleção particular e raramente exposto, exemplifica essa fase. Na composição, uma mulher negra carrega um bebê enquanto se estende ao redor um cenário de matizes alegres que combinam céu, vegetação e construção urbana.

Ao eleger a luz tropical como elemento determinante, Segall ampliou o contraste entre conteúdo socialmente crítico e cores calorosas, criando leituras que oscilam entre denúncia e vitalidade. Mesmo diante de críticas conservadoras, a escolha cromática foi parte de sua afirmação estética no ambiente modernista brasileiro.

Até a Lua permanecer a mesma: a exposição “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”

A mostra em cartaz reúne também retratos íntimos de pessoas próximas ao pintor. A esposa, a escritora Jenny Klabin Segall, surge em diferentes fases, reforçando tanto o vínculo afetivo quanto o diálogo criativo do casal. Jenny, que assumiria depois um papel fundamental na documentação da obra do marido e na criação do museu que leva o sobrenome dele, é acompanhada por outras modelos frequentes, como Lucy Ferreira, aluna do artista, e Mira Perlov.

Nos anos finais, o pintor dedicou-se a cenas campestres e noturnas. “Floresta com Galhos Entrelaçados” e “Gado ao Luar”, ambas incluídas na exposição, mostram vacas anônimas repousando sob a claridade suave da Lua — astro que, conforme relatou em carta ao poeta Vinicius de Moraes, seria “sempre o mesmo”, independentemente de guerras ou deslocamentos humanos. Essa transição de foco, do drama humano para a serenidade rural, sugere um desejo de pausa após décadas de temas carregados de tensão.

“Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua” permanece aberta ao público até 5 de abril. A visitação pode ser feita de terça a domingo, das 10h às 18h, no prédio do Museu Judaico, situado na rua Martinho Prado, 128, região central de São Paulo. Os ingressos custam R$ 24, e a classificação é livre.

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Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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