Mais de 55% da vegetação nativa do Cerrado já desapareceu: estudo detalha causas e alerta para riscos hídricos e climáticos

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation demonstra que a vegetação nativa do Cerrado enfrenta a maior crise de sua história recente. O artigo compila décadas de dados e confirma que mais da metade da cobertura original do bioma foi eliminada, sobretudo nas últimas cinco décadas, colocando em risco sua biodiversidade, o armazenamento de carbono e a segurança hídrica do país.
- Quem e o que revela a perda da vegetação nativa do Cerrado
- Onde e quando ocorreu a redução da vegetação nativa do Cerrado
- Como a vegetação nativa do Cerrado vem sendo substituída
- Por que a perda da vegetação nativa do Cerrado impacta clima e água
- Consequências para a biodiversidade e propostas de proteção
- Desafios da restauração e a importância das espécies nativas
- Lacunas de conhecimento e urgência de novos dados
Quem e o que revela a perda da vegetação nativa do Cerrado
O alerta parte de pesquisadores que reuniram estudos conduzidos ao longo de vários anos para avaliar a extensão da degradação. A análise, divulgada em Nature Conservation, classifica o Cerrado como um Ecodomínio — grande região ecológica com clima, relevo e formas de vida relativamente uniformes. Com aproximadamente 2 milhões de quilômetros quadrados, o bioma cobre cerca de 24% do território nacional e se estende marginalmente para Bolívia e Paraguai. A pesquisa conclui que 55% da vegetação nativa do Cerrado já desapareceu, somando uma área devastada superior a 1 milhão de quilômetros quadrados.
Entre os autores citados, destaca-se Cássio Cardoso Pereira, colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de São João del-Rei. O docente reforça que a restauração precisa respeitar a composição original do solo e das espécies, evitando soluções simplistas que priorizam árvores exóticas em ambientes naturalmente abertos.
Onde e quando ocorreu a redução da vegetação nativa do Cerrado
A retração não se dá de forma homogênea. As maiores perdas ocorreram nos últimos 50 anos, coincidindo com a expansão agrícola e urbana nas porções centrais do país. Estados como Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Bahia e Maranhão concentraram a conversão de savanas em lavouras de grãos e pastagens. Áreas campestres, veredas e campos rupestres — ambientes com flora endêmica — também foram afetadas, ainda que em escalas diversas.
O período de maior pressão coincide com o avanço da fronteira agrícola. Embora índices recentes indiquem desaceleração relativa no ritmo anual de desmatamento, a soma de áreas já suprimidas mantém o Cerrado como o bioma brasileiro com maior perda proporcional de cobertura original.
Como a vegetação nativa do Cerrado vem sendo substituída
A conversão resulta principalmente de quatro vetores: agricultura intensiva, pastoreio, mineração e expansão urbana. A agricultura mecanizada lidera, convertendo grandes extensões em monoculturas de grãos. Pastagens implantadas com espécies exóticas reduzem a diversidade nativa e simplificam a estrutura ecológica. A mineração pressiona áreas específicas, sobretudo campos rupestres ricos em minerais. Por fim, a especulação fundiária e o crescimento de cidades avançam sobre parcelas antes ocupadas por savanas e veredas.
O fogo completa o quadro. Ainda que parte das espécies tenha adaptações a queimadas naturais, a maioria dos incêndios atuais é provocada por ação humana, fora de regime histórico e, portanto, com maior intensidade. Queimadas frequentes e mal controladas alteram ciclos de nutrientes, expõem o solo e favorecem a invasão de plantas não nativas.
Por que a perda da vegetação nativa do Cerrado impacta clima e água
Chamado de “floresta invertida”, o Cerrado armazena cerca de 90% do seu carbono abaixo do solo. Raízes profundas, típicas do bioma, formam um reservatório subterrâneo que também regula a infiltração e a retenção de água. Quando a vegetação nativa do Cerrado é retirada, o solo perde essa capacidade, liberando carbono para a atmosfera e reduzindo a umidade armazenada. Esse duplo efeito interfere no equilíbrio climático regional e na recarga de aquíferos.
A região sustenta importantes bacias hidrográficas, alimentando rios que correm para Amazonas, São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata. A irrigação agrícola, o uso de agrotóxicos e a construção de barragens têm reduzido a vazão natural dos cursos d’água, enquanto a supressão da cobertura vegetal compromete a filtragem da água e a manutenção de veredas — zonas úmidas essenciais para a regulação hídrica.

Imagem: Marco Antio Carrilho Shutterstock
Consequências para a biodiversidade e propostas de proteção
A fragmentação de habitats ameaça inúmeras espécies de plantas, invertebrados, aves e mamíferos. O estudo menciona uma “extinção silenciosa”: organismos desaparecem antes de serem formalmente descritos pela ciência, dificultando políticas de conservação. Existem 706 Unidades de Conservação na região, representando 8% da área total do Cerrado; contudo, menos de 3% possui regime de proteção integral. O Código Florestal determina a manutenção de 20% de Reserva Legal em propriedades privadas e faixas de preservação permanente de 30 metros ao longo de cursos d’água, números avaliados como insuficientes pelos autores.
Medidas propostas incluem ampliar a Reserva Legal para pelo menos 35%, estabelecer novas áreas protegidas, fortalecer a fiscalização e adotar sistemas de rastreabilidade na produção agropecuária. O objetivo declarado é dissociar desenvolvimento econômico da expansão sobre remanescentes nativos, garantindo segurança climática, hídrica e produtiva de longo prazo.
Desafios da restauração e a importância das espécies nativas
Nem todo programa de reflorestamento resolve os danos já instalados. A introdução de espécies arbóreas exóticas em áreas originalmente abertas pode alterar o regime de fogo, modificar o balanço hídrico e comprometer bancos de sementes locais. A revisão científica enfatiza que projetos de restauração devem priorizar a funcionalidade ecológica: recuperar a estrutura subterrânea de raízes, respeitar mosaicos de campos e savanas e restabelecer interações entre plantas, solo e microrganismos.
Essas estratégias exigem levantamento prévio de espécies, monitoramento de longo prazo e envolvimento de comunidades locais. Sem esse cuidado, a recuperação pode transformar paisagens naturais em sistemas homogêneos, reduzindo ainda mais a resiliência do bioma.
Lacunas de conhecimento e urgência de novos dados
A ausência de inventários completos, sobretudo para invertebrados e plantas de distribuição restrita, limita a elaboração de políticas específicas. Espécies podem desaparecer antes de serem registradas, um fenômeno que o estudo denomina de extinção silenciosa. Para enfrentar o problema, os autores recomendam expandir programas de pesquisa, catalogar interações ecológicas e integrar bases de dados sobre solos, água e biodiversidade.
Com informações consolidadas, torna-se possível orientar restauração, planejar corredores ecológicos e definir prioridades de conservação mais precisas. Sem dados, o risco é investir em ações pouco eficazes enquanto a degradação avança.
Para evitar o colapso ambiental e assegurar o abastecimento hídrico nacional, a revisão propõe elevar de 20% para 35% a área de Reserva Legal, criar novas Unidades de Conservação e exigir rastreabilidade completa dos produtos agropecuários oriundos do bioma. Segundo os pesquisadores, essas metas são imprescindíveis para dissociar crescimento econômico da destruição da vegetação nativa do Cerrado e preservar o futuro climático, hídrico e produtivo do país.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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