Como “Mulholland Drive” saiu de um piloto recusado pela ABC para se tornar obra-prima de David Lynch

Mulholland Drive é hoje reconhecido como um dos filmes mais influentes do século XXI, mas a sua trajetória começou como um piloto encomendado pela ABC e atravessou cortes drásticos, impasses criativos e um resgate europeu antes de chegar às telas de cinema.

Índice

A gênese televisiva de Mulholland Drive

Na segunda metade da década de 1990, o sucesso de Twin Peaks levou a ABC a buscar outro projeto de David Lynch. O diretor, já associado a narrativas enigmáticas, apresentou uma nova proposta ambientada nos bastidores de Hollywood. A premissa girava em torno de “Rita”, uma mulher de cabelos escuros que desperta com amnésia, uma grande quantia de dinheiro e uma chave azul enigmática. Ela se une à aspirante a atriz “Betty” para desvendar a própria identidade, enquanto forças obscuras conspiram contra a dupla. O canal comprou o conceito e destinou 4,5 milhões de dólares para um piloto de duas horas. A Touchstone Television, braço televisivo da Disney, acrescentou mais 2,5 milhões, elevando o orçamento inicial a 7 milhões de dólares, valor expressivo para a televisão do período.

Anúncio

O contrato determinava que Lynch gravasse um material alternativo com final fechado, permitindo uma eventual montagem cinematográfica para o mercado europeu. Embora relutante, o cineasta aceitou a condição e iniciou as filmagens em Los Angeles, apostando em clima onírico e ritmo deliberado, em contraste com as fórmulas convencionais de seriados.

Notas da emissora e o embate criativo em Mulholland Drive

À medida que as diárias chegavam à ABC, executivos manifestaram desconforto com o conteúdo. Relatórios internos exigiam retirar diálogos considerados impróprios, limitar cenas de violência gráfica e reduzir referências que pudessem ferir padrões de horário nobre. Um exemplo pitoresco foi a solicitação para cortar um close de fezes caninas em uma calçada; Lynch considerava o plano “precioso” e só aceitou deixá-lo na montagem quando a imagem passou a ocupar apenas um terço da tela. Além disso, a emissora impôs que apenas personagens malignos fumassem e que disparos não mostrassem o impacto físico no cenário. Para o diretor, tais restrições diluíam a autenticidade do universo retratado.

Nesse ambiente de tensão, Lynch declarou que a busca por linearidade rápida era incompatível com o processo criativo que defendia. Apesar disso, enviou o piloto completo, esperando um diálogo construtivo sobre ajustes possíveis.

Mulholland Drive enfrenta cortes e a rejeição definitiva

A recepção na ABC foi negativa. A emissora condicionou qualquer continuidade a uma redução drástica, eliminando especialmente os últimos 37 minutos, considerados obscuros demais. Lynch tentou preservar a integridade do material, mas acabou efetuando cortes que levaram o episódio a 88 minutos. O gesto pretendia sinalizar disposição para colaboração, porém não foi suficiente. O canal avaliou que a série continuava complexa e optou por descartar o projeto. Com a decisão, o cineasta se deu por satisfeito em deixar a televisão: afirmou que os processos decisórios do meio eram estranhos e que preferia se dedicar a narrativas ímpares, sem amarras de grade de programação.

Produtores franceses resgatam Mulholland Drive para o cinema

Enquanto Lynch voltava sua atenção a novas ideias, os produtores franceses Pierre Edelman e Alain Sarde, da Le Studio Canal+, tomaram conhecimento do piloto rejeitado. Interessados em transformar o material em longa-metragem, ofereceram mais 8 milhões de dólares para concluir as filmagens. Inicialmente reticente, Lynch acabou convencido pela autonomia criativa prometida. O cineasta elaborou 18 páginas adicionais de roteiro, suficientes para 45 minutos inéditos que redefiniram toda a narrativa. Essa etapa incluiu o clímax doloroso e fragmentado que hoje caracteriza o filme, conferindo nova camada de ambiguidade à história construída para a televisão.

O financiamento europeu permitiu que Lynch remontasse todas as cenas gravadas, adicionasse novos personagens e ampliasse a atmosfera sombria. Ao contrário da postura da ABC, os produtores encorajaram a abordagem não linear, a iconografia onírica e os silêncios prolongados que marcam a obra do diretor. O resultado foi um longa de aproximadamente duas horas e meia, sem concessões ao estilo hollywoodiano convencional.

Como “Mulholland Drive” saiu de um piloto recusado pela ABC para se tornar obra-prima de David Lynch - Imagem do artigo original

Imagem: Getty

Estreia e consagração internacional de Mulholland Drive

Concluída a pós-produção, a versão cinematográfica de Mulholland Drive estreou no Festival de Cannes de 2001. O júri concedeu a Lynch o prêmio de melhor direção, reconhecimento que impulsionou a distribuição mundial. Nos Estados Unidos, a recepção crítica levou o filme a concorrer ao Oscar de melhor diretor, consolidando-o como retorno triunfal do cineasta ao circuito de arte. Os anos seguintes ampliaram sua reputação: em 2022, a pesquisa decenal da revista Sight & Sound posicionou o título na oitava colocação entre os maiores filmes de todos os tempos. Após a morte de Lynch em 2025, o jornal The New York Times avaliou a obra como a segunda melhor do século, enfatizando a influência duradoura de sua estrutura labiríntica.

Alguns fatores explicam essa aclamação. O longa preserva a tensão psicológica típica de Lynch e questiona a lógica narrativa ao alternar entre realidade e delírio. A montagem, resultado direto do fracasso televisivo, cria surpresas que talvez não existissem se a história tivesse seguido o formato seriado. Além disso, a trilha sonora de Angelo Badalamenti, colaborador constante do diretor, aprofunda a sensação de desorientação. O compositor faleceu pouco depois de Lynch, o que reforça o caráter definitivo da versão conhecida pelo público.

Legado de David Lynch reforçado por Mulholland Drive

A saga de Mulholland Drive ilustra a insistência de David Lynch em proteger a singularidade de sua visão. A recusa em diluir cenas controversas, mesmo ao custo de perder o apoio de um grande canal, permitiu que o resultado final surgisse sem filtros excessivos. A transformação de piloto em longa também oferece um estudo sobre como restrições iniciais podem, paradoxalmente, culminar em soluções artísticas mais ousadas quando surge financiamento disposto a arriscar. O caso ainda evidencia a diferença de expectativas entre televisão aberta, com padrões rígidos de conteúdo, e cinema autoral, que admite maior experimentação.

Para a ABC, o episódio serviu de alerta sobre o desafio de trabalhar com criadores de forte identidade que não se enquadram em métricas convencionais. Para Lynch, tornou-se a confirmação de que sua linguagem encontra espaço mais fértil fora das grades corporativas. O público, por sua vez, ganhou acesso a uma obra que se mantém aberta a interpretações e continua a ser debatida em escolas de cinema, listas de melhores do ano e fóruns de críticos.

Com o falecimento de Lynch em 2025 e de Badalamenti em seguida, Mulholland Drive permanece disponível em sua forma integral, fruto de um investimento final de 8 milhões de dólares e da liberdade criativa proporcionada pelo estúdio francês.

Artigos Relacionados

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Quando você efetua suas compras por meio dos links disponíveis em nosso site, podemos receber uma comissão de afiliado, sem que isso acarrete nenhum custo adicional para você.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK