Navios abandonados: entenda o salto no número de petroleiros deixados no mar e os riscos para as tripulações

O registro de navios abandonados – sobretudo petroleiros e outras embarcações comerciais – explodiu no último ano, afetando milhares de marinheiros que permanecem à deriva sem salário, comida ou destino definido. Dados da International Transport Workers’ Federation (ITF) mostram que 410 casos foram identificados em 2025, contra apenas 20 em 2016, configurando um crescimento expressivo que chama a atenção de sindicatos, agências da ONU e governos.

Índice

O que são navios abandonados e por que o total disparou

De acordo com diretrizes da Organização Marítima Internacional (IMO), uma embarcação é considerada abandonada quando o armador deixa de cobrir os custos de repatriação da tripulação, rompe o vínculo contratual ou interrompe o pagamento de salários por, no mínimo, dois meses. Em 2025, 6.223 profissionais da marinha mercante se viram nessa situação, quase um terço a mais do que em 2024. A pandemia de covid-19, conflitos regionais e oscilações agudas no custo do frete compõem o pano de fundo econômico que pressiona armadores financeiramente frágeis a simplesmente largarem suas embarcações em alto-mar ou em portos estrangeiros.

Anúncio

Um exemplo emblemático envolve um petroleiro carregando 750 mil barris de petróleo russo, ancorado fora das águas territoriais chinesas desde o fim de 2024. Sem receber salários havia meses, parte da tripulação foi repatriada, mas a maioria segue a bordo, dependendo de doações de comida, água e medicamentos viabilizadas pela ITF.

Navios abandonados e frotas fantasmas: como sanções estimulam o problema

Grande parte da escalada recente está ligada às chamadas frotas fantasmas – petroleiros antigos, de propriedade obscura, sem seguro confiável e, frequentemente, em más condições de operação. Após a invasão da Ucrânia, sanções limitaram o preço do petróleo russo; mesmo assim, países como China e Índia mantiveram a demanda, criando um mercado paralelo de transporte. Para driblar restrições, donos recorrem a empresas de fachada, registros pouco rigorosos e rotas que evitam portos fiscalizados. Quando a pressão financeira aperta, a solução costuma ser o abandono da embarcação, repassando o problema a tripulantes isolados em mar aberto.

Esse contexto também envolve Irã e Venezuela, que utilizam navios fantasmas para exportar petróleo em violação a embargos. Como são ativos difíceis de rastrear, muitas vezes operam fora dos parâmetros mínimos de segurança, expondo os trabalhadores a riscos ampliados de acidentes, falta de mantimentos e atrasos salariais prolongados.

Bandeiras de conveniência impulsionam o surto de navios abandonados

O registro em bandeiras de conveniência – quando o navio exibe a bandeira de um país diferente daquele de seus proprietários – existe há mais de um século. Panamá, Libéria e Ilhas Marshall concentram 46,5% da tonelagem mercante mundial e oferecem taxação baixa, fiscalização limitada e poucos requisitos trabalhistas. Em 2025, 337 dos 410 casos de abandono, ou 82% do total, envolviam bandeiras desse tipo.

A ascensão da Gâmbia nesse mercado ilustra o fenômeno. Em 2023, o país não registrava petroleiro algum. Um ano depois, tornara-se Estado de bandeira para 35 embarcações. A receita gerada pelas taxas de registro seduz nações em desenvolvimento, mas a ausência de monitoramento consistente torna complexa a responsabilização quando problemas trabalhistas surgem. No caso do petroleiro retido próximo à China, a bandeira gambiana era falsa; a embarcação foi, então, aceita provisoriamente por outro país africano, que abriu investigação formal.

Consequências humanas: salários retidos e sobrevivência dentro de navios abandonados

O impacto direto recai sobre marinheiros de diferentes nacionalidades. Em 2025, os salários atrasados somados das tripulações chegaram a US$ 25,8 milhões, segundo IMO e Organização Internacional do Trabalho (OIT). A ITF conseguiu recuperar US$ 16,5 milhões, mas ainda restam pendências significativas. Apenas no caso do petroleiro citado, o passivo salarial alcançava US$ 175 mil na primeira intervenção sindical.

Indianos formaram o grupo mais afetado, com 1.125 profissionais – 18% do total. Filipinos (539) e sírios (309) vieram em seguida. Diante do cenário, o governo da Índia bloqueou 86 embarcações estrangeiras relacionadas a abandono ou violação de direitos trabalhistas. As investigações mostraram que muitos proprietários não puderam ser localizados e que os Estados de bandeira não responderam às reclamações.

Além das perdas financeiras, marinheiros enfrentam racionamento de alimentos, ausência de carne, grãos e peixe, escassez de água potável e ambiente operacional marcado por tensão e ansiedade. Alguns passam meses confinados, sem autorização para atracar nem meios de retornar ao país de origem.

Ações de sindicatos, agências da ONU e governos diante dos navios abandonados

A ITF lidera a linha de frente na defesa dos trabalhadores, monitorando denúncias, negociando pagamento de salários e providenciando suprimentos emergenciais. A entidade também pressiona por investigações quando há indícios de falsificação de bandeiras e exige transparência na cadeia de propriedade dos navios.

A IMO e a OIT mantêm registros consolidados de abandono e atuam na formulação de normas de segurança e proteção trabalhista. Entretanto, especialistas apontam a dificuldade de aplicação das regras, sobretudo quando as embarcações navegam em águas internacionais ou operam sob registros de conveniência. Para o sindicato Nautilus International, representado por seu secretário-geral, a prática equivale a abdicação de responsabilidade por parte dos países-bandeira, revelando a necessidade de um vínculo efetivo entre proprietários e Estados sob cuja legislação os navios operam.

Governos nacionais também começam a reagir. A China, por exemplo, vem evitando permitir a entrada de determinados petroleiros sob forte escrutínio, temendo ficar associada a violações trabalhistas ou infringir sanções internacionais. A Índia, além da lista negra de embarcações, discute mecanismos de seguro obrigatório que cubram salários e repatriação em caso de inadimplência dos armadores.

Próximos passos para o petroleiro retido e perspectivas para 2026

O desfecho do navio fundeado fora da China depende de uma operação de transferência de carga de navio para navio em alto-mar. Somente após a retirada dos 750 mil barris de petróleo estimados em US$ 50 milhões é que as autoridades envolvidas deverão definir destino, venda ou descarte da embarcação. Enquanto isso, parte da tripulação segue a bordo, aguardando pagamento integral e repatriação.

A tendência para 2026 indica que a quantidade de navios abandonados continuará sujeita a variáveis geopolíticas – sobretudo o futuro das sanções contra Rússia, Irã e Venezuela – e à evolução do mercado de transporte pós-pandemia. Organizações sindicais defendem maior cooperação internacional para fiscalizar frotas fantasmas, rastrear proprietários e garantir condições dignas a quem trabalha no mar.

A próxima atualização oficial sobre casos registrados deve ser divulgada pela IMO no início do ano seguinte, quando será possível aferir se as medidas adotadas por governos e sindicatos conseguiram frear a curva ascendente do abandono marítimo.

Artigos Relacionados

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Quando você efetua suas compras por meio dos links disponíveis em nosso site, podemos receber uma comissão de afiliado, sem que isso acarrete nenhum custo adicional para você.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK