Negócios em favelas crescem após a pandemia: 56% nasceram de 2020 em diante, aponta Data Favela

Negócios em favelas passaram por uma expansão acelerada desde o início da covid-19: segundo levantamento do instituto Data Favela, 56% das empresas comunitárias foram abertas a partir de fevereiro de 2020, evidenciando como a crise sanitária se converteu em ponto de virada para o empreendedorismo nos territórios populares do Brasil.
- Negócios em favelas e o impulso gerado pela pandemia
- Perfil econômico dos negócios em favelas: faturamento, despesas e formalização
- Capital inicial e fontes de financiamento
- Gestão, divulgação e canais de venda
- Motivações e desafios por trás dos negócios em favelas
- Impacto econômico dos negócios em favelas nas comunidades brasileiras
- Dados demográficos: quem vive e quem empreende nas favelas
Negócios em favelas e o impulso gerado pela pandemia
O mapeamento do Data Favela, organização de pesquisa ligada à Central Única das Favelas (Cufa), destaca que a pandemia funcionou como divisor de águas. Entre fevereiro de 2020 e abril de 2022, período de maior instabilidade econômica e sanitária, 12% dos novos empreendimentos comunitários foram inaugurados. Após o fim do estado de emergência em saúde, em maio de 2022, outros 44% deram início às atividades, consolidando a marca de 56% de negócios criados no intervalo de menos de quatro anos.
A designer potiguara Ligia Emanuel da Silva ilustra esse movimento. Residente em Rio Tinto, litoral norte da Paraíba, ela transformou uma mala de miçangas da mãe na semente do Entorno Acessórios, marca que produz adornos inspirados na estética e na ancestralidade africanas. Ao empreender em plena quarentena, Ligia associou geração de renda à preservação cultural, demonstrando como a motivação financeira pode coexistir com a afirmação identitária.
Perfil econômico dos negócios em favelas: faturamento, despesas e formalização
A pesquisa, realizada com 1 000 empreendedores de todo o país em outubro e novembro de 2025, revela uma forte concentração de faturamento nas faixas mais baixas. 23% arrecadam até um salário mínimo vigente na época da coleta (R$ 1.518), enquanto 28% recebem entre um e dois mínimos. Dessa forma, praticamente metade (51%) fatura no máximo R$ 3.040 por mês. Na extremidade superior, somente 5% superam R$ 15,2 mil mensais.
Do ponto de vista de custos, 57% dos empreendedores gastam até R$ 3.040 mensais para manter o funcionamento, indicação de que despesas e receitas tendem a se equilibrar, atingindo margens de lucro estreitas. A formalização ainda avança aos poucos: 40% são registrados, sendo 36% como Microempreendedor Individual (MEI), regime simplificado que reduz tributos e facilita emissão de notas fiscais.
Capital inicial e fontes de financiamento
As barreiras de entrada, embora menores que no mercado tradicional, exigem algum investimento. 37% dos entrevistados abriram o negócio com até R$ 1.520; mais 23% aplicaram entre R$ 1.520 e R$ 3.040. Valores acima de R$ 15,2 mil foram citados por apenas 9% dos participantes. O capital de partida veio principalmente de economias pessoais ou familiares (57%). Outras origens frequentes incluem indenização trabalhista e recursos extras, ambos com 14%, além de empréstimos bancários, mencionados por 13%.
A dificuldade para acessar crédito aparece, posteriormente, como obstáculo recorrente. Entre os desafios apontados, 51% reclamam da falta de capital e 25% mencionam a restrição de empréstimos, fatores que limitam expansão, compra de insumos e modernização.
Gestão, divulgação e canais de venda
A administração financeira se mantém majoritariamente analógica. 59% dos proprietários utilizam cadernos para controle de receitas e despesas, 13% não registram absolutamente nada, 24% recorrem a planilhas e apenas 4% adotam outros métodos. Essa realidade impacta planejamento e acesso a linhas de crédito que exigem demonstrativos formais.
No campo do marketing, a internet se tornou aliada. 75% divulgam produtos ou serviços pelo Instagram, 58% recorrem ao WhatsApp, 41% utilizam o Facebook e 3% estão no marketplace iFood. Ainda assim, 34% dependem exclusivamente do boca a boca, estratégia tradicional em comunidades. A adoção de meios de pagamento segue a mesma lógica: o Pix é aceito por 91% dos estabelecimentos, enquanto o dinheiro físico continua forte, presente em 85%. O cartão de crédito atinge 28% e o de débito 25%, porcentuais modestos que refletem custos de maquininhas e taxas bancárias.
Motivações e desafios por trás dos negócios em favelas
Quando questionados sobre a razão que os levou a empreender, os entrevistados destacam o desejo de independência (45%), a necessidade econômica (29%) e a falta de emprego (26%). A crise de postos formais, intensificada pelo isolamento social, impulsionou a migração para o trabalho autônomo. Outros fatores, como identificar uma oportunidade (18%) ou seguir tradição familiar (7%), também aparecem, mas em menor escala.

Imagem: Ligia anuele
Para a diretora de Marketing da VR, empresa de benefícios em alimentação que encomendou a pesquisa, muitos residentes de comunidades não planejaram se tornar empreendedores; a urgência de manter a renda familiar foi determinante. A escassez de capital, já citada, soma-se à dificuldade de acesso a ferramentas de gestão e processos de digitalização, elementos que poderiam acelerar a profissionalização dos negócios.
Impacto econômico dos negócios em favelas nas comunidades brasileiras
O Data Favela estima que, somados, os empreendimentos comunitários movimentam R$ 300 bilhões por ano. Esse fluxo financeiro gera empregos, mesmo que informais, e faz girar a economia local, pois pequenos empresários tendem a adquirir insumos nas proximidades, fortalecendo uma rede intrabairro. Assim, cada nova empresa atua como catalisadora de renda, contribuindo para a redução de deslocamentos e a melhoria da qualidade de vida dos moradores.
A Cufa, parceira do instituto de pesquisa, ressalta que o desenvolvimento interno cria um círculo virtuoso: ao crescer, o negócio aumenta a demanda por mão de obra local, que por sua vez passa a consumir mais dentro do próprio território. Esse ciclo reforça o comércio de itens básicos, estimula a prestação de serviços e amplia a arrecadação de tributos quando há formalização.
Dados demográficos: quem vive e quem empreende nas favelas
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou 16,4 milhões de brasileiros residentes em favelas, o equivalente a 8% da população na época. O levantamento identificou 12.348 comunidades espalhadas por 656 municípios. A composição racial evidencia que pretos (16,1%) e pardos (56,8%) somam 72,9% dos moradores, enquanto as mulheres representam 51,7% da população desses territórios.
No recorte dos empreendedores, 5% vivem fora da comunidade (moradores “do asfalto”), 21% recebem o programa Bolsa Família e 5% são aposentados. Uma parcela de 19% concilia o negócio com outro emprego, sendo 9% com carteira assinada. Essas informações reforçam a pluralidade de perfis e estratégias de sobrevivência, combinando formal e informal.
Entre os meios de recebimento, a preferência pelo Pix e pelo dinheiro vivo indica adaptação rápida a soluções sem custo, ao passo que a menor aceitação de cartões (crédito em 28% e débito em 25%) reflete preocupação com tarifas. Vender fiado ainda é prática de 22% dos entrevistados, evidência de que relações de confiança continuam a sustentar parte da dinâmica comercial.
A próxima edição da pesquisa do Data Favela, prevista para 2027, deverá verificar se a formalização avança, se a digitalização se amplia e como o acesso ao crédito evolui, aspectos cruciais para o futuro dos negócios em favelas que se consolidaram depois da pandemia.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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