Ópera do Malandro renasce no Teatro Renault como rito urbano que funde samba, cabaré e umbanda

Ópera do Malandro renasce no Teatro Renault como rito urbano que funde samba, cabaré e umbanda

Ópera do Malandro volta aos palcos paulistanos em uma encenação que abandona a nostalgia e abraça o calor ritualístico das ruas contemporâneas. Sob a direção de Jorge Farjalla, o tradicional palco do Teatro Renault torna-se um espaço híbrido, onde o texto criado por Chico Buarque em 1978 encontra o ritmo frenético de um “terreiro urbano”. A estreia reúne elenco liderado por José Loreto e Valéria Barcellos, reafirma temas de poder e sobrevivência e estabelece temporada até 15 de março, com sessões de sexta a domingo.

Índice

Ópera do Malandro: montagem de Jorge Farjalla reposiciona a Lapa dos anos 1940

A proposta dramatúrgica parte das linhas originais de Chico Buarque, ambientadas na Lapa dos anos 1940, mas descarta qualquer leitura saudosista. Farjalla converte o cenário histórico em um emaranhado de símbolos, mesclando o sagrado de tradições afro-brasileiras ao profano inerente à economia informal. O diretor utiliza essa sobreposição para afirmar que a lógica social descrita na peça permanece viva no Brasil de 2026, projetando no palco a continuidade de desigualdades que atravessam décadas.

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Ao optar pelo Teatro Renault, situado na avenida Brigadeiro Luís Antônio, região central de São Paulo, a produção explora um espaço já reconhecido por receber musicais de grande porte. O contraste entre a infraestrutura sofisticada da casa e a estética de rua buscada na montagem intensifica a sensação de que o malandro circula por todos os estratos da cidade, do centro iluminado às encruzilhadas escondidas.

Max Overseas: do terno branco clássico ao vermelho de Exu

No núcleo da história, Max Overseas reaparece com significados expandidos. Interpretado por José Loreto, o personagem abandona o terno branco — símbolo tradicional de elegância ambígua — que marca outras montagens. Já na primeira cena, a concepção visual coordenada por Farjalla e pela figurinista Ùga Agú veste o malandro de vermelho intenso. A cor remete à exposição total do corpo e à cor do sangue derramado em batalhas cotidianas, aproximando-o da iconografia de Exu, orixá associado ao movimento, à troca e ao poder de negociação.

Esse figurino não permanece estático. Durante o espetáculo, o tecido branco retorna, agora manchado de vermelho até o peito, sinalizando que a violência que permeia os negócios escusos de Max impregna sua aparente pureza. Em outra sequência, um paletó listrado cruza branco e vermelho, transformando o ator num “código de barras” orgânico que traduz a duplicidade moral do protagonista. Assim, o figurino torna-se narrativa visual e reforça a ideia de que a malandragem é uma pele que se adapta ao ambiente.

Geni em Ópera do Malandro: voz coletiva e resistência trans no centro da cena

Se Max representa o movimento, Geni simboliza o território. A escolha de Valéria Barcellos para o papel introduz uma experiência de vida que recodifica a personagem. Mulher trans e negra, a atriz traz para o palco a memória de violências simbólicas e literais, deslocando Geni do lugar de vítima lírica para uma figura de densidade política. O ápice cênico ocorre na canção “Geni e o Zepelim”, quando Barcellos convoca a plateia a entoar o refrão ofensivo originalmente dirigido à personagem. O gesto transforma o público em testemunha ativa do preconceito que a narrativa denuncia.

Ao fundo, a atriz Marina Mathey — também trans — repete a performance, instaurando uma duplicidade coreografada. As duas intérpretes não competem; elas se espelham em tempos distintos de uma mesma vida. Enquanto a Geni do proscênio exibe força inicial, o reflexo distante surge fragilizado. A progressão da cena inverte essas energias, convertendo a dor individual em relato comunitário. O procedimento reafirma que o apedrejamento simbólico não recai sobre um corpo isolado, mas sobre uma coletividade que resiste.

Ópera do Malandro renasce no Teatro Renault como rito urbano que funde samba, cabaré e umbanda - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Cabaret brechtiano, carnaval de rua e umbanda estruturam a nova Ópera do Malandro

A encenação abraça o excesso como método. Farjalla introduz referências do cabaré politizado de Bertolt Brecht, adiciona a organicidade carnavalesca dos cortejos populares e recorre aos pontos cantados da Umbanda para orientar coreografias. As prostitutas geridas por Duran (Ernani Moraes) exibem postura que evoca Pombagiras, enquanto a corrupção burocrática do Delegado Chaves (Amaury Lorenzo) ganha paralelos com despachos de rua. O resultado é um espetáculo que não explica sua simbologia: prefere incorporá-la na ação física de cada personagem.

A trilha sonora reforça esse território híbrido. Sob supervisão de Gui Leal, as músicas conhecidas do repertório de Chico Buarque ganham percussão densa, por vezes dissonante. O arranjo amplifica o erotismo e a crítica social embutidos nas letras, lembrando que samba, marcha e bolero sempre coexistiram com disputas de poder nas vielas da cidade. Dessa forma, cada número musical funciona como etapa de um ritual em que os participantes negociam espaço, sobrevivência e identidade.

Ficha técnica, horários e valores da temporada de Ópera do Malandro

A produção ocupa o Teatro Renault com sessões programadas para toda a semana: sextas-feiras às 20h, sábados em dois horários (17h e 21h) e domingos às 15h e 19h. A temporada segue até 15 de março, oferecendo ao público 120 minutos de espetáculo em cada apresentação. A classificação indicativa é de 14 anos.

Os ingressos partem de R$ 25 na modalidade meia-entrada para o balcão popular. As vendas ocorrem pela plataforma Tickets for Fun e na bilheteria oficial do teatro, que não cobra taxa de conveniência. Localizado na avenida Brigadeiro Luís Antônio, bairro da Bela Vista, o Teatro Renault disponibiliza infraestrutura compatível com grandes montagens, acomodando o cenário mutável que a direção propõe nesta versão da Ópera do Malandro.

Quem pretender conferir a experiência que funde espiritualidade afro-brasileira, crítica social e musicalidade de Chico Buarque tem até a sessão final de 15/3 para assistir à nova montagem.

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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