Perda de água doce acelera elevação do nível do mar e ameaça 280 milhões de pessoas, aponta Banco Mundial

Perda de água doce acelera elevação do nível do mar e ameaça 280 milhões de pessoas, aponta Banco Mundial

Um levantamento extenso do Banco Mundial, fundamentado em 22 anos de observações de satélites da NASA, expõe que a perda de água doce nos continentes chegou a um patamar sem precedentes. Todos os anos, aproximadamente 324 bilhões de metros cúbicos deixam o ambiente terrestre, volume que poderia suprir as necessidades hídricas anuais de 280 milhões de pessoas e que equivale ao esvaziamento de quatro piscinas olímpicas a cada segundo. Além de pressionar reservatórios e aquíferos, essa retirada tornou-se o maior agente individual de aumento do nível dos oceanos, ultrapassando até mesmo o derretimento das calotas polares.

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Escala global da perda de água doce

Os dados compilados mostram que a drenagem anual de 324 bilhões de metros cúbicos não é um fenômeno regional nem pontual. A abrangência é planetária, envolvendo todas as grandes massas de terra. Para contextualizar, esse montante supera, por larga margem, o volume total contido no Lago Vitória, na África, em apenas dois anos. Ao mesmo tempo, seu impacto persistente desloca enormes quantidades de massa líquida dos continentes para os oceanos, contribuindo diretamente para a elevação do nível do mar. A análise do Banco Mundial indica que, somado a esse deslocamento, o rebaixamento de solos nas áreas mais secas já pode ser detectado por variações de altitude mensuradas a partir do espaço.

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A magnitude da crise reflete uma mudança estrutural no ciclo hidrológico terrestre. À medida que as reservas subterrâneas são esgotadas, o balanço hídrico passa a depender de fluxos mais instáveis, como chuvas e degelo de geleiras. O estudo ressalta que a consistência estatística ao longo de 22 anos reduz a margem de dúvida: a tendência de seca continental não é episódica, mas crescente, e vem ocorrendo de forma constante em todas as faixas de latitude analisadas.

Como a seca continental promove perda de água doce e elevação do mar

A perda de água doce detalhada pelo relatório decorre principalmente de três mecanismos. O primeiro, de natureza antrópica, é a extração intensiva de águas subterrâneas para irrigação e abastecimento urbano. Como a agricultura responde por 98% do uso hídrico global, a retirada para alimentar plantações representa a maior fatia do volume drenado. O segundo mecanismo é a evaporação ampliada por ondas de calor mais extensas e frequentes, que reduzem a permanência de umidade nos solos. Em terceiro lugar, o derretimento de geleiras, impulsionado pelo aquecimento, transfere água doce sólida diretamente para os oceanos.

A soma desses processos não apenas diminui a disponibilidade continental, mas também redistribui massa em escala planetária. Quando a água subterrânea é extraída, parte dela evapora ou escoa para os rios até alcançar o mar, elevando o nível global das águas. O Banco Mundial contextualiza que, isoladamente, a contribuição líquida desse deslocamento já supera a dos glaciares polares. Essa conclusão posiciona a seca continental como o fator mais influente na aceleração do avanço costeiro, com efeitos práticos sobre cidades litorâneas, ecossistemas estuarinos e infraestrutura portuária.

Consequências econômicas da perda de água doce nas regiões mais pobres

O impacto socioeconômico é mais agudo em países com estrutura produtiva dependente da agricultura e com menor resiliência financeira. No Sul da Ásia e na África Subsaariana, o relatório calcula que a escassez resulta em perda de até 10% da renda hídrica anual, parcela decisiva para economias focadas em exportação de produtos agrícolas. Apenas na África Subsaariana, as estiagens decorrentes da seca continental eliminam, ano após ano, entre 600 mil e 900 mil postos de trabalho. O declínio da produtividade atinge pequenos agricultores, reduz a oferta de alimentos e pressiona preços internos e externos.

Além da renda direta, a retração do estoque hídrico compromete serviços ecossistêmicos, como recarga de aquíferos e regulação de microclimas, que têm valor econômico implícito. A perda desses serviços gera custos adicionais em infraestrutura de captação, tratamento e transporte de água. Nas nações que já enfrentam restrições fiscais, o deslocamento de recursos públicos para mitigar a crise hídrica tende a reduzir investimentos em saúde, educação e transporte, agravando a vulnerabilidade social.

Biodiversidade sob pressão: incêndios e ecossistemas ameaçados

Os efeitos ambientais acompanham a gravidade econômica. O documento do Banco Mundial aponta que pelo menos 17 dos 36 principais hotspots de biodiversidade do planeta, entre eles áreas do Brasil, de Madagascar e do Sudeste Asiático, já registram risco elevado de grandes incêndios florestais relacionado à redução da umidade no solo e na vegetação. Tais incêndios não apenas devastam habitats, mas liberam grandes quantidades de carbono, retroalimentando o aquecimento global. A cadeia de impactos se estende à fauna, que perde áreas de migração e alimentação, e às populações tradicionais que dependem dos recursos naturais.

Regiões da África do Sul que sofreram secas mais severas exibem, segundo medições do satélite, os maiores aumentos no nível do solo decorrentes da compactação. Esse rebaixamento agrava a vulnerabilidade de ecossistemas de savana e provoca mudanças hidrológicas em zonas úmidas, reduzindo a disponibilidade de água para espécies endêmicas. A perda de resiliência biológica torna ecossistemas inteiros menos capazes de se recuperar após eventos climáticos extremos.

Estratégias de mitigação para conter a perda de água doce

Apesar da situação alarmante, o relatório descreve três frentes de ação capazes de frear ou reverter a perda de água doce. A primeira é a eficiência agrícola. Como quase todo o consumo global está concentrado na irrigação, mesmo avanços modestos em tecnologias de precisão, uso de sensores de umidade ou adoção de variedades vegetais menos dependentes de água podem gerar economias significativas em escala continental. A segunda frente envolve o chamado comércio virtual de água. Países deficitários em recursos hídricos podem optar por importar commodities de alto consumo de água, como grãos e algodão, poupando seus aquíferos locais.

A terceira via é a governança. Estudos de caso comparados pelo Banco Mundial mostram que nações com políticas robustas de gestão hídrica esgotam suas reservas subterrâneas de duas a três vezes mais devagar. Elementos centrais dessa governança incluem regulamentação clara, monitoramento sistemático e precificação adequada do recurso, de modo a desestimular o uso excessivo. A combinação dessas três diretrizes forma um conjunto de ferramentas que, se adotadas em paralelo, pode estabilizar o balanço hídrico em prazos de décadas.

Coordenação internacional: do alerta à ação possível

Para Fan Zhang, autor principal do estudo, a crise não reconhece fronteiras e tende a extrapolar o âmbito doméstico quando os fluxos de comércio, migração e sistemas fluviais interligados entram em jogo. O Banco Mundial sustenta que soluções isoladas têm alcance limitado e pressiona por coordenação entre países, organismos multilaterais e setores privados. Já o hidrólogo Jay Famiglietti, coautor do relatório, vê espaço para otimismo moderado. Segundo ele, políticas públicas, inovação financeira e compromisso em escalas de décadas podem conduzir a um uso sustentável da água.

O documento conclui que, embora o desafio seja global e urgente, existe um caminho factível para reduzir a perda de água doce. Esse caminho depende de ação imediata, integrada e sustentada, envolvendo mudanças agrícolas, ajustes em cadeias de suprimento e fortalecimento da governança hídrica em todas as regiões afetadas.

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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