Protestos contra o ICE: como a cultura transformou-se em palco de resistência nos EUA

Os protestos contra o ICE – Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos – ultrapassaram as ruas geladas de Washington e ganharam o centro do entretenimento norte-americano. Discursos, músicas, espetáculos e artes visuais tornaram-se ferramentas de contestação a uma agência criada em 2003 e, desde então, alvo de críticas pela forma como conduz detenções e deportações de imigrantes.
- Como começaram os protestos contra o ICE no universo artístico
- Grammy 2024 amplifica os protestos contra o ICE em rede mundial
- Artistas de diferentes gêneros reforçam os protestos contra o ICE
- Obras visuais eternizam os protestos contra o ICE desde 2003
- Linha do tempo dos protestos culturais diante do ICE
- Efeitos dos protestos contra o ICE na percepção pública
- Panorama atual e continuidade das manifestações culturais
Como começaram os protestos contra o ICE no universo artístico
A presença de artistas no debate migratório antecede a gestão Donald Trump. Logo após a fundação do ICE, em resposta aos ataques de 11 de setembro e durante o governo George W. Bush, setores culturais já apontavam possíveis excessos da nova estrutura federal. Em 2008, por exemplo, o Museu Nacional de Arte Mexicana, em Chicago, apresentou a exposição “A Declaration of Immigration”, reunindo mais de 70 obras que abordavam restrições legais e relatos de comunidades latino-americanas afetadas pela política oficial.
A crítica também se refletiu em artes gráficas. A californiana Ester Hernandez, conhecida pela defesa de temas chicanos, atualizou em 2008 o icônico “Sun Mad” para “Sun Raid”. O esqueleto ilustrado empunha um bracelete com a identificação do ICE, veste o huipil indígena e segura uma cesta de uvas enquanto expressões como “deportação garantida” e “louco nos Estados Unidos” reforçam o tom sarcástico da obra. O trabalho, hoje parte do acervo do Smithsonian, insere-se na tradição de cartazes de protesto da arte latina e evidencia que o embate artístico com o órgão já ultrapassa duas décadas.
Grammy 2024 amplifica os protestos contra o ICE em rede mundial
O ponto alto recente ocorreu na cerimônia do Grammy, realizada em Los Angeles. Ali, premiados e convidados aproveitaram a visibilidade global para reforçar os protestos contra o ICE. O rapper porto-riquenho Bad Bunny, vencedor na categoria melhor álbum de música urbana, dedicou parte de seu discurso à pauta migratória. A cantora Olivia Dean, eleita artista revelação e neta de imigrantes, destacou a contribuição de migrantes para a indústria cultural. Na mesma linha, Billie Eilish, detentora de múltiplos Grammys desde a adolescência, recordou o passado colonial do território ao afirmar que nenhuma pessoa pode ser considerada ilegal.
A manifestação não ficou restrita ao palco. No tapete vermelho, nomes consolidados como Joni Mitchell, Kehlani, o canadense Justin Bieber e a modelo Hailey Bieber circularam usando broches com a inscrição “ICE Out”, mensagem direta à agência federal. O ato coletivo levou a sigla a ser mencionada em redes sociais ao longo da transmissão, ampliando o alcance do debate para além dos presentes no evento.
Artistas de diferentes gêneros reforçam os protestos contra o ICE
A reação cultural abrange do pop ao folk. Lady Gaga, ganhadora de Oscar e Grammys, abordou o tema em apresentação recente no Japão, lamentando relatos de separação familiar atribuídos às operações da agência. No folk, Jesse Welles incluiu em seu álbum “No Kings” a faixa “Join ICE”, uma crítica satírica à lógica de recrutamento do órgão. Já Bruce Springsteen, figura central do rock norte-americano, lançou “Streets of Minneapolis” em homenagem a vítimas de ações policiais, ampliando o diálogo sobre violência institucional.
Também surgiram disputas pelo uso de repertórios. Sabrina Carpenter e Olivia Rodrigo, expoentes do pop da nova geração, posicionaram-se contra a utilização de canções como “Juno” e “All-American Bitch” em peças de publicidade com viés anti-imigração. A recusa reforçou a percepção de que a música popular tornou-se uma trincheira simbólica para minorias migrantes dentro dos Estados Unidos.
Obras visuais eternizam os protestos contra o ICE desde 2003
Nas artes plásticas, Favianna Rodriguez e Melanie Cervantes criaram em 2012 o pôster “Alto Polimigra”, que questiona o programa Secure Communities, estratégia que permitiu o compartilhamento de dados entre forças locais de segurança e o ICE. Utilizando cores vivas e tipografia inspirada em cartazes de mobilização latina, a peça denuncia a rotina de cerca de 1.100 deportações diárias registrada naquele período.
Os cartazes seguem presentes nas ruas norte-americanas. Em bairros de forte presença latina, imagens de imigrantes identificados apenas como Alex ou Renée colam nas fachadas para humanizar estatísticas e alertar sobre a propagação de operações. A ocupação de espaços públicos por lambe-lambes e murais amplia o alcance da mensagem para além de galerias e museus.
Linha do tempo dos protestos culturais diante do ICE
2003 – Fundação do ICE: consolidado dentro do Departamento de Segurança Interna, o órgão recebeu mandato para combater imigração irregular e crimes transnacionais.
2008 – “Sun Raid” e “A Declaration of Immigration”: artistas de origem mexicana e chicana respondem às primeiras grandes batidas com exposições e sátiras visuais.

Imagem: Internet
2012 – “Alto Polimigra”: movimento gráfico denuncia o impacto humano das deportações em massa, enquanto o programa Secure Communities atinge amplitude nacional.
2013 – “Ice El Hielo”: a banda La Santa Cecilia, vencedora de Grammy Latino, lança canção sobre o medo cotidiano de famílias latinas, fortalecendo os protestos contra o ICE no cenário musical.
2016 – 2020 – Endurecimento migratório: políticos e artistas colidem em torno de medidas mais rígidas, culminando na presença maciça de manifestações em premiações de entretenimento.
2023 – 2024 – Novo ciclo de premiações: Bad Bunny, Olivia Dean e Billie Eilish consolidam o uso dos principais palcos da indústria fonográfica como fórum de debate sobre políticas migratórias.
Efeitos dos protestos contra o ICE na percepção pública
Ao abraçar diversas linguagens, os movimentos culturais produzem reverberação distinta em comparação a manifestações puramente políticas. A agência federal passou a figurar em letras de músicas, roteiros de stand-up, estampas de figurinos e coleções de museus. Essa circulação simbólica reforça a visibilidade dos relatos de famílias separadas ou de deportações sumárias.
Do ponto de vista artístico, o tema também influenciou formatos de shows. Algumas turnês adotaram intervalos dedicados a depoimentos de imigrantes, enquanto exibições de cinema independente incluíram debates pós-sessão sobre vigilância nas fronteiras. O resultado é a consolidação de um circuito em que criadores e público compartilham vivências semelhantes ou solidárias às comunidades afetadas.
Panorama atual e continuidade das manifestações culturais
Com temperatura baixa e ruas cobertas de neve, Washington exibe cartazes pedindo “ICE Out” ao lado de murais coloridos; a frase sintetiza a persistência do descontentamento. A soma de artistas premiados, instituições museológicas e coletivos de bairro configura uma frente cultural que, embora heterogênea, mantém um objetivo comum: expor a face humana das políticas migratórias.
Entre as iniciativas em andamento, a banda La Santa Cecilia segue apresentando “Ice El Hielo” em turnês; Bad Bunny prepara novos espetáculos que incluem mensagens de apoio a imigrantes; e o Museu Nacional de Arte Mexicana preserva a mostra “A Declaration of Immigration” em seu acervo permanente, assegurando que a trajetória dos protestos contra o ICE permaneça acessível às próximas gerações.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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