Rosebush Pruning expõe o patriarcado em família americana isolada e marca presença de Karim Aïnouz na Berlinale

Rosebush Pruning, novo longa‐metragem do cineasta cearense Karim Aïnouz, estreou na mostra competitiva do Festival de Berlim com a proposta de esmiuçar as estruturas do patriarcado a partir de uma família americana que vive em autoexílio na Catalunha. A produção, falada em inglês e recheada de nomes conhecidos do cinema norte-americano e britânico, traz à superfície tensões de classe, sexualidade e poder dentro de uma casa comandada por um pai cego e autoritário.
- Rosebush Pruning investiga o patriarcado por meio de uma trama familiar
- Referência direta a Punhos Cerrados reforça a genealogia de Rosebush Pruning
- Elenco de Rosebush Pruning e processo de ensaio fora do padrão
- Karim Aïnouz e Efthymis Filippou moldam uma narrativa ácida sobre riqueza e consumo
- Rosebush Pruning aprofunda a crítica à desigualdade e sugere riscos de fascismo
- Rosebush Pruning destaca inovação formal e o entusiasmo de um primeiro filme
- Repercussão na Berlinale e próximos passos de Rosebush Pruning
Rosebush Pruning investiga o patriarcado por meio de uma trama familiar
O enredo de Rosebush Pruning gira em torno de quatro irmãos que, após a morte da mãe, permanecem reclusos na propriedade herdada, sem estudar ou trabalhar. A rotina é marcada por demonstrações de afeto pouco usuais, competição por objetos de grife e absoluta dependência financeira do pai, que, mesmo sem enxergar, exerce controle sobre cada detalhe do cotidiano. Esse equilíbrio frágil começa a ruir quando Jack, o primogênito, apresenta a namorada Martha à família e sinaliza que deseja abandonar o lar. A presença da visitante deflagra uma sequência de revelações sobre desejos, fetiches e violências que todos os moradores preferiam manter ocultos.
Referência direta a Punhos Cerrados reforça a genealogia de Rosebush Pruning
O ponto de partida do roteiro é uma releitura declarada de “Punhos Cerrados” (1965), estreia do cineasta italiano Marco Bellocchio. No clássico, a figura opressora residia na mãe; no longa de Aïnouz, o peso dramático se desloca para o pai, refletindo, segundo o diretor, a urgência contemporânea de discutir os alicerces do patriarcado. A troca de gênero no personagem central não altera a essência de disfunção familiar, mas introduz significados atuais sobre masculinidade e concentração de poder. A ideia de filmar em uma única locação – elemento também presente no original – surgiu ainda durante a pandemia, quando a possibilidade de rodar toda a narrativa numa casa parecia logisticamente vantajosa.
Elenco de Rosebush Pruning e processo de ensaio fora do padrão
Elle Fanning (Martha), Jamie Bell (Jack), Callum Turner (Ed), Riley Keough, Lukas Gage e Tracy Letts formam o núcleo principal. Durante duas semanas, o grupo ensaiou intensamente na própria locação espanhola. Jamie Bell relatou que, logo no primeiro dia de filmagem, Aïnouz sugeriu que os atores abandonassem tudo o que fora ensaiado, estratégia que buscava capturar reações mais espontâneas diante das situações extremas do roteiro. Essa liberdade passou a ser um dos motores da performance coletiva, principalmente em cenas de tensão que envolvem descrições minuciosas de aparência, como o momento em que o pai, privado da visão, pede detalhes sobre o corpo e os objetos de Martha.
Karim Aïnouz e Efthymis Filippou moldam uma narrativa ácida sobre riqueza e consumo
A parceria entre Aïnouz e o roteirista grego Efthymis Filippou, indicado ao Oscar por “O Lagosta”, resultou num texto que combina sarcasmo e violência para retratar o conflito entre privilégio e decadência. O diretor viu na visão externa – um brasileiro filmando personagens norte-americanos – a oportunidade de tensionar ainda mais esses contrastes. Filippou, conhecido pela colaboração com Yorgos Lanthimos, declarou que as cenas provocativas servem apenas para ilustrar a condição humana, não para chocar gratuitamente. O texto traz diálogos em que a irmã única afirma conhecer cada perversão dos homens da casa e uma metáfora constante: podar roseiras para que as rosas floresçam, equivalente a cortar laços familiares sufocantes.
Rosebush Pruning aprofunda a crítica à desigualdade e sugere riscos de fascismo
No encontro com a imprensa na Berlinale, Tracy Letts mencionou que o filme expõe como a extrema concentração de riqueza pode degenerar em mau comportamento e, eventualmente, em fascismo. A reflexão está visível tanto nos colecionáveis de luxo exibidos pelos personagens quanto na ociosidade que favorece práticas abusivas. O roteiro usa relógios, bolsas e sapatos como marcadores de status e como símbolos de uma identidade construída unicamente pelo consumo. A ausência de responsabilidades externas – emprego, estudo ou participação social – reforça o laboratório fechado onde a violência simbólica e física se intensifica.

Imagem: Internet
Rosebush Pruning destaca inovação formal e o entusiasmo de um primeiro filme
Aïnouz reconheceu que se sentiu atraído pela energia experimental de “Punhos Cerrados”. Ao transferir essa vibração para Rosebush Pruning, buscou enquadramentos que convertessem a mansão catalã num espaço quase claustrofóbico, onde cada cômodo guarda segredos e rivalidades. A atmosfera se beneficia da fotografia que valoriza texturas de tapeçarias antigas e peças vintage, incluindo uma breve referência brasileira no desfile de grifes que percorre a tela. Essa escolha reforça o comentário social sobre consumo globalizado, ao mesmo tempo em que sublinha o olhar estrangeiro do diretor sobre a elite norte-americana retratada.
Repercussão na Berlinale e próximos passos de Rosebush Pruning
A exibição do longa neste 76º Festival de Berlim posiciona Aïnouz pela segunda vez na competição oficial com um filme falado em inglês. O cineasta comemorou a abertura crescente do circuito internacional para narrativas produzidas fora dos grandes centros de língua inglesa. Enquanto circulam boatos de que Callum Turner possa assumir a franquia 007 – questão que o ator preferiu não comentar – o próprio Aïnouz brincou dizendo que dirigir um James Bond seria um sonho. A anedota, porém, não desloca o foco principal do momento: a recepção crítica a Rosebush Pruning e o potencial do longa para dialogar com premiações futuras, inclusive o Oscar, espaço onde o diretor observa uma ampliação de vozes diversas.
Concluídas as primeiras sessões em Berlim, o público aguarda a divulgação oficial do calendário de estreias comerciais de Rosebush Pruning, etapa que definirá quando a obra chegará a salas de cinema fora dos grandes festivais.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.
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