Trigêmeos nascidos de útero transplantado recebem alta em São Paulo e estabelecem marco global

Trigêmeos nascidos de útero transplantado recebem alta em São Paulo e estabelecem marco global

Alisson, Ryan e Heitor deixaram o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) na última sexta-feira, 14, e levaram consigo dois feitos que já constam nos registros da medicina. Eles são os primeiros trigêmeos nascidos de um útero transplantado com sucesso e, após quase sessenta dias de internação na unidade neonatal, receberam alta usando mantos de Nossa Senhora Aparecida, gesto escolhido pelos pais para marcar o momento.

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O marco inédito

O procedimento de transplante de útero continua classificado como experimental em todo o mundo. Até agora, havia relatos de nascimentos únicos ou, no máximo, de gêmeos a partir desse tipo de cirurgia. O parto ocorrido em agosto no HC-FMUSP rompeu essa barreira ao resultar em três bebês vivos de uma única gestação. O hospital informou que a alta hospitalar representa a confirmação de que tanto o órgão transplantado quanto os recém-nascidos responderam bem aos cuidados intensivos dos últimos meses.

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Da ausência de útero ao transplante

A mãe dos trigêmeos, Jessica Borges, nasceu sem útero em razão da síndrome de Rokitansky, condição genética rara que impede a formação do órgão reprodutor. O desejo de gestar motivou sua inscrição no programa de doação de útero de doadoras falecidas do hospital. No entanto, a equipe do Centro de Reprodução Humana propôs uma abordagem inédita na América Latina: utilizar uma doadora viva. A irmã de Jessica, Jaqueline, que já era mãe de dois filhos, decidiu oferecer o próprio útero.

O transplante, realizado pela equipe multidisciplinar do HC-FMUSP, viabilizou que Jessica passasse a ter anatomia compatível com a gestação. A cirurgia incluiu a retirada do útero de Jaqueline, a preservação de vasos sanguíneos e a implantação no corpo da receptora, exigindo habilidade em técnicas vasculares e ginecológicas avançadas.

Um embrião, três bebês

No fim de janeiro, os especialistas optaram por transferir apenas um embrião ao útero transplantado, justamente para evitar uma gestação múltipla em um órgão ainda em fase de avaliação. Entretanto, ocorreu um evento raro: o embrião dividiu-se duas vezes. Segundo o supervisor do Centro de Reprodução Humana, professor Dani Ejzenberg, a probabilidade dessa divisão dupla é estimada em 0,04%. O resultado foi uma gestação de trigêmeos idênticos, circunstância que acrescentou complexidade a um caso já considerado de alto risco.

Gestação monitorada intensamente

Desde o resultado positivo, a gravidez foi classificada como gestação de risco por dois motivos principais: o útero transplantado e o número de fetos. Jessica passou por consultas frequentes, exames adicionais e monitoramento intensivo do fluxo sanguíneo uterino. A equipe multidisciplinar observava não apenas o desenvolvimento fetal, mas também a adaptação do órgão transplantado, que precisava garantir espaço e irrigação adequados a três fetos em crescimento.

Apesar dos fatores de risco, a evolução foi descrita como satisfatória durante boa parte dos sete meses em que os trigêmeos permaneceram no útero. A cada etapa, os médicos avaliavam pressão arterial materna, sinais de rejeição do órgão e marcadores de prematuridade. O professor Wellington Andraus, coordenador médico da Divisão de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo do HC, relatou que o órgão mostrou “total capacidade de sustentar uma gestação gemelar”, mesmo quando essa gestação envolveu três bebês.

Prematuridade e cuidados neonatais

Como antecipado pela equipe, a prematuridade se confirmou. Alisson, Ryan e Heitor nasceram em agosto, no sétimo mês de gestação. A prematuridade exigiu suporte respiratório inicial, controle térmico e nutrição assistida, condutas usuais para bebês com idade gestacional reduzida. Durante quase dois meses, cada um permaneceu em incubadora, passando por avaliações diárias de ganho de peso, maturação pulmonar e reflexos neurológicos.

Paralelamente, a mãe recebeu acompanhamento para verificar a recuperação cirúrgica do transplante e os efeitos da imunossupressão, necessária para evitar rejeição do útero doado. Esse acompanhamento incluiu exames laboratoriais, ultrassonografias de controle e reuniões com psicólogos e nutricionistas.

Alta hospitalar e simbolismo religioso

A liberação dos trigêmeos, na sexta-feira 14, ocorreu quando atingiram parâmetros clínicos considerados seguros para a vida domiciliar: estabilidade respiratória, peso adequado e alimentação por via oral. No momento da saída, os bebês vestiam mantos de Nossa Senhora Aparecida. O hospital descreveu o gesto dos pais, Jessica e Ronilson, como um agradecimento pelo “caminho da fé, da ciência e da resiliência” percorrido pela família.

Funcionários do setor de neonatologia se reuniram na porta da maternidade, registrados em foto divulgada no perfil oficial do HC-FMUSP, para saudar o trio. A legenda da publicação definiu os recém-nascidos como “pequenos gigantes” pela força demonstrada desde o nascimento. Ainda segundo a unidade, a alta reforça a importância da integração entre pesquisa científica, técnicas cirúrgicas inovadoras e assistência multiprofissional.

Relevância para a medicina reprodutiva

O nascimento de Alisson, Ryan e Heitor amplia as evidências de que um útero transplantado pode funcionar de forma semelhante a um órgão nativo, mesmo diante de uma gestação múltipla rara. Esse resultado fornece base para novos protocolos em transplantes uterinos e amplia o debate sobre o acesso a essa terapia para mulheres com fator uterino absoluto de infertilidade, como é o caso da síndrome de Rokitansky.

Especialistas do HC-FMUSP destacam dois pontos: a viabilidade do procedimento com doadora viva, que simplifica a logística em relação a doadoras falecidas, e o potencial de reduzir riscos em futuras gestações à medida que mais dados forem coletados. Embora continue experimental, a técnica mostra-se promissora para ampliar opções de reprodução assistida.

Próximos passos da família

Com a ida para casa, os trigêmeos iniciam fase de acompanhamento ambulatorial. O calendário inclui consultas pediátricas regulares, fisioterapia preventiva e avaliações de desenvolvimento motor e cognitivo. Jessica seguirá monitorada pela equipe de transplantes para ajuste de medicação imunossupressora e exames de imagem do útero.

O HC-FMUSP mantém registro detalhado do caso para fins de pesquisa. Informações coletadas no pré-natal, no parto e no período neonatal serão inseridas em bancos de dados que avaliam desfechos maternos e infantis em transplante uterino. Esse acompanhamento sistemático busca identificar tendências que possam melhorar a segurança de futuras pacientes.

Impacto social e científico

Além do marco médico, o caso desperta interesse social por reunir elementos de solidariedade familiar—a doação do útero pela irmã—com o avanço de tecnologias reprodutivas. A combinação desses aspectos reforça discussões sobre ética, acesso público e sustentabilidade de programas experimentais. O hospital enfatiza que todos os passos seguiram protocolos aprovados por comitês de ética em pesquisa.

Sem fazer projeções, a equipe do Centro de Reprodução Humana sublinha que o sucesso dos trigêmeos pode incentivar novas candidatas a buscar o transplante, mas adverte que cada caso demanda avaliação individual minuciosa. O procedimento envolve exigências técnicas e imunológicas que ainda limitam sua adoção em larga escala.

Por ora, Alisson, Ryan e Heitor transformam-se em referência clínica e em símbolo da sinergia entre ciência e cuidado humanizado. O momento em que cruzaram a porta do HC-FMUSP, envoltos em mantos azuis, encerrou a etapa hospitalar de uma história que começou com a determinação de duas irmãs e avançou para um resultado sem precedentes na literatura médica.

OrganizaSimples

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe. Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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