Últimos neandertais: complexo de cavernas em Gibraltar pode ter abrigado a derradeira população da espécie

As pesquisas realizadas no complexo de Gorham, esculpido nas falésias calcárias de Gibraltar, apontam para a possibilidade de que os neandertais tenham encontrado ali um de seus últimos refúgios entre 33 000 e 24 000 anos atrás. Os vestígios exumados em quatro cavernas à beira do mar Mediterrâneo revelam camadas superpostas de ocupação, artefatos tecnológicos e indícios de comportamento simbólico que reconstroem, em detalhes, os momentos finais desse grupo humano.
- Gibraltar como cenário dos neandertais
- Evidências de ocupação antiga: 100 000 anos de permanência neandertal
- Tecnologia e cultura dos últimos neandertais
- Expressões simbólicas nas paredes da caverna
- Descoberta da câmara selada: um capítulo recente
- Cronologia de sobrevivência: dos 33 000 aos 24 000 anos antes do presente
- Próximos passos da investigação arqueológica
Gibraltar como cenário dos neandertais
O complexo arqueológico de Gorham ocupa a face leste do rochedo de Gibraltar, um ponto estratégico que domina a entrada ocidental do Mar Mediterrâneo. Formado por quatro cavernas – Gorham, Vanguard, Hyaena e Bennett – o sítio reúne sedimentos que registram até 100 000 anos de história. A localização costeira fornecia abrigo, água potável proveniente de aquíferos internos e fácil acesso a recursos marinhos, fatores que podem ter contribuído para a permanência prolongada dos habitantes neandertais.
Evidências de ocupação antiga: 100 000 anos de permanência neandertal
Escavações sucessivas demonstram que atividades humanas se estendem até as camadas mais profundas, datadas de aproximadamente 100 milênios. Esse intervalo antecede a chegada do Homo sapiens à Europa Ocidental, deixando os neandertais como únicos candidatos à autoria do material exumado. Entre os artefatos mais reveladores estão montes de conchas de mexilhão, ossos de focas e fragmentos de golfinhos, todos portando marcas de corte produzidas por instrumentos líticos. A presença desses restos demonstra conhecimento climático, domínio de marés e planejamento de coleta, já que a mariscagem e a caça de mamíferos marinhos exigem observação apurada do ambiente costeiro.
Tecnologia e cultura dos últimos neandertais
O repertório técnico identificado em Gorham evidencia um grau de sofisticação que dialoga com práticas de longa duração. Um dos achados mais expressivos consiste em uma lareira datada de 60 000 anos, utilizada na produção de alcatrão de bétula. Esse material funcionava como adesivo para fixar pontas de pedra em cabos de madeira, resultando em ferramentas compostas. O processo de obtenção de alcatrão requer controle de temperatura e privação parcial de oxigênio, indicando capacidade de planejamento, experimentação e transmissão intergeracional de conhecimento.
Além da tecnologia, alimentos de origem marinha reforçam a visão de um grupo adaptado a vários nichos ecológicos. Ossos de focas revelam cortes finos, enquanto vértebras de golfinhos mostram fraturas associadas ao desmembramento intencional. Esses dados confirmam a aptidão dos neandertais para ampliar sua dieta além da caça terrestre, algo essencial em regiões litorâneas sujeitas a flutuações sazonais de recursos.
Expressões simbólicas nas paredes da caverna
Padrões de linhas cruzadas, entalhados profundamente em uma das superfícies rochosas, foram datados de mais de 39 000 anos. O arranjo deliberado desses traços sugere uma intenção que ultrapassa o utilitário, levantando a hipótese de manifestação artística rudimentar. Ainda que a interpretação permaneça em debate, o fato de a gravação exigir múltiplos movimentos controlados corrobora a tese de que a mente neandertal possuía capacidade simbólica. Isso se soma a um conjunto crescente de evidências europeias que questiona a suposta exclusividade do Homo sapiens em produzir arte.
Descoberta da câmara selada: um capítulo recente
Em 2021, escavações na Caverna Vanguard revelaram uma passagem que leva a uma câmara situada 13 metros além do nível previamente conhecido. O espaço permaneceu isolado por sedimentos durante, no mínimo, 40 000 anos. Dentro dele, arqueólogos encontraram ossos de lince, restos de abutre e a concha de um grande búzio marinho. Este último objeto não poderia ter chegado ali por processos naturais, sugerindo que os neandertais transportaram o item, possivelmente para fins ornamentais, de armazenamento de substâncias ou produção sonora. O isolamento prolongado da câmara oferece um microcosmo intacto, capaz de fornecer amostras de pólen, microfauna e microvestígios que ajudarão a reconstruir hábitos alimentares, clima e rotinas de ocupação.

Imagem: Alan Clarke
Cronologia de sobrevivência: dos 33 000 aos 24 000 anos antes do presente
Ampliando a análise estratigráfica, pesquisadores propõem que o complexo permaneceu ativo em um período muito posterior ao tradicional limite de extinção neandertal, fixado em torno de 40 000 anos. Amostras de carvão e restos orgânicos retirados das camadas superiores apontam para uma janela temporal entre 33 000 e 24 000 anos atrás. Se essa hipótese se confirmar, a população de Gibraltar teria persistido milênios após o desaparecimento de congêneres em outras partes da Eurásia.
Este cenário reforça a noção de refúgio ambiental. O microclima do Estreito de Gibraltar, com invernos amenos e abundância de recursos costeiros, pode ter atenuado pressões ecológicas enfrentadas por grupos internos do continente. Assim, a costa mediterrânea funcionaria como abrigo final, onde a linhagem manteria suas tradições de coleta marinha, produção de alcatrão e gravações simbólicas até desaparecer definitivamente do registro fóssil.
Próximos passos da investigação arqueológica
O material retirado da nova câmara e dos níveis superiores ainda passa por datação radiométrica e análises de DNA ambiental. Esses procedimentos têm potencial para esclarecer se traços genéticos remanescentes pertencem a populações homogêneas ou a grupos sucessivos. Também estão em andamento estudos de microscopia de uso em lâminas de pedra que podem revelar vestígios de plantas, sangue animal ou resinas.
A equipe de campo planeja ampliar a escavação horizontal nas quatro cavernas para mapear áreas que poderiam conter fogueiras adicionais ou espaços de processamento de recursos marinhos. O objetivo imediato é estabelecer uma cronologia de alta resolução capaz de confirmar, década a década, a permanência dos neandertais em Gibraltar entre 33 000 e 24 000 anos atrás.
A conclusão dessas análises laboratoriais representará o próximo marco científico esperado pelos pesquisadores que buscam desvendar a ocupação derradeira da espécie no Mediterrâneo.

Olá! Meu nome é Zaira Silva e sou apaixonada por tornar a vida mais leve, prática e organizada — especialmente depois que me tornei mãe.
Criei o Organiza Simples como um cantinho acolhedor para compartilhar tudo o que aprendi (e continuo aprendendo!) sobre organização da casa, da rotina e da mente, sem fórmulas impossíveis ou metas inalcançáveis.

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